Por Stella Ferrari — Em um dia marcado pela assinatura do acordo comercial histórico entre a União Europeia e a Índia, que cria um mercado integrado de cerca de dois bilhões de pessoas, as principais praças europeias fecharam em território positivo, impulsionadas por expectativas de crescimento e realinhamentos setoriais.
A Piazza Affari liderou os ganhos no Velho Continente, com a Milão registrando alta de 1,09%, seguida por Londres (+0,58%) e Paris (+0,27%), enquanto Frankfurt permaneceu abaixo da linha de empate. Esse comportamento reflete uma combinação de fluxo por ativos europeus cíclicos e a leitura do mercado sobre os efeitos de médio prazo do acordo UE-Índia no comércio e nas cadeias de valor.
No contraponto transatlântico, a Wall Street apresentou sinais mistos na véspera do pronunciamento do Fed. O Nasdaq destacou-se pelo ganho em torno de 1%, sustentado por ganhos relevantes em empresas de tecnologia, enquanto o Dow Jones recuou aproximadamente 0,5%, pressionado por setores industriais e financeiros. Esses movimentos mostram uma diferença de marcha entre o motor da economia tech e a base mais clássica da capitalização americana.
Os dados macroeconômicos também trouxeram ruído: a confiança do consumidor dos Estados Unidos, referente a janeiro, caiu para 84,5 pontos — abaixo das estimativas e no nível mais baixo desde 2014. Essa leitura alimenta preocupações sobre consumo e crescimento, e, em combinação com inquietações sobre a política orçamentária e a independência do Fed sob a administração Trump, tem pesado sobre o dólar.
Em consequência, o euro registrou valorização, superando a marca de 1,19 dólar. A movimentação da moeda transatlântica reflete tanto fluxos posicionais quanto uma recalibragem de expectativas sobre a trajetória de juros e a política fiscal americana — ou seja, uma revisão fina na calibragem dos riscos globais.
Paralelamente, não arrefecem as pressões sobre os metais preciosos: o ouro continua sua escalada e chegou a quase 5.100 dólares por onça, sinalizando busca por proteção em um cenário de incertezas macro e monetárias. O bullion funciona, nesta conjuntura, como um freio de emergência para carteiras que buscam resiliência diante da volatilidade.
Do ponto de vista estratégico, o acordo UE-Índia é um desdobramento relevante para a arquitetura comercial global: abre rotas para fornecedores europeus de alto valor agregado, ao mesmo tempo em que oferece à Índia acesso a mercados e tecnologias. Para investidores, trata-se de identificar empresas com design de políticas e cadeias capazes de aproveitar a nova escala.
Em suma, o dia mostrou uma Europa com aceleração pontual, um dólar que perde tração frente a riscos políticos e macroeconômicos, e um ouro que atua como indicador de aversão ao risco. A leitura fina dessa sessão exige atenção à Fed e às comunicações fiscais nos EUA — a próxima curva de juros pode alterar rapidamente o rumo do mercado.
Stella Ferrari é economista sênior e estrategista de mercado da Espresso Italia. Analisa macroeconomia com foco em investimentos de alta performance.






















