Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, no espaço público, parte do eixo de influência política dos Estados Unidos, o índice de aprovação das políticas de imigração do presidente Trump recuou para 39%. É o nível mais baixo desde o retorno do ex-presidente à Casa Branca em janeiro de 2025, segundo o último levantamento Reuters/Ipsos.
O levantamento nacional, realizado entre sexta e domingo, colheu opiniões antes e depois de um episódio que engrossou o clima de tensão: a morte do cidadão americano Alex Pretti em Minneapolis, durante confrontos com manifestantes opostos ao desdobramento de agentes do ICE. A sequência de operações federais, muitas vezes conduzidas por agentes com o rosto coberto e em trajes de estilo militar, tornou-se imagem recorrente em várias cidades e catalisou protestos locais e críticas nacionais.
Os números do poll apontam que apenas 39% dos americanos aprovam a atuação de Trump em matéria de imigração, queda frente aos 41% registrados no início de janeiro. Por outro lado, 53% desaprovam. Vale lembrar que, em fevereiro do ano passado, quando a agenda migratória ainda parecia ser um pilar sólido da popularidade presidencial, 50% aprovavam e 41% desaprovavam — indicações de que os alicerces dessa fortaleza política enfrentam fissuras.
O levantamento também mede a percepção sobre o uso da força: cerca de 58% dos entrevistados consideram que os agentes do Immigration and Customs Enforcement (ICE) foram “demasiado além” em suas operações; 12% disseram que não foram suficientemente enérgicos; e 26% acharam a atuação “mais ou menos justa”. A discordância é marcada por um claro recorte partidário: aproximadamente nove em cada dez democratas avaliaram que os agentes excederam, contra duas em cada dez republicanos e seis em cada dez independentes.
Na esteira desses eventos e do clamor público, o presidente Trump recebeu ontem à noite, por quase duas horas, a secretária de Segurança Interna Kristi Noem e seu assessor sênior Corey Lewandowski, segundo fontes consultadas pela CNN. A reunião no Salão Oval, que teve caráter franco e direto, não incluiu ameaças formais de exoneração por parte do mandatário, mas concentrou-se em como manter a implementação da agenda migratória em um Minnesota marcado por forte contraccolpo e críticas, inclusive dentro do próprio campo republicano.
Além de Noem e Lewandowski, participaram outros altos funcionários, como a chefe de gabinete Susie Wiles e porta-vozes da administração. As fontes afirmam que a Casa Branca já ensaiou sinais de recuo operacional em Minneapolis após a morte de Pretti, demonstrando que, no jogo estratégico que é a gestão de crises, a Casa Branca precisa calibrar seus movimentos para não perder terreno político.
Como analista, observo que assistimos a um movimento decisivo no tabuleiro: políticas que inicialmente consolidaram uma posição de força agora enfrentam erosão em meio a repercussões humanas e institucionais. A tectônica de poder da administração sobre a agenda migratória mostra-se, por ora, menos estável do que parecia ser no primeiro semestre de seu governo. A habilidade em redesenhar comunicações e operações, preservando os objetivos estratégicos sem ampliar os custos políticos, será determinante para a continuidade da agenda.






















