Por Aurora Bellini — Em um momento em que cada escolha de consumo ilumina caminhos para um futuro mais justo, um novo estudo europeu aponta como os supermercados podem tanto semear soluções quanto perpetuar emissões. A pesquisa, conduzida pelo think tank Questionmark em parceria com WWF, ProVeg International e Madre Brava, avaliou 27 grandes redes em oito países para entender até que ponto essas cadeias estão comprometidas com a sustentabilidade do sistema alimentar.
A agricultura e o sistema alimentar respondem por cerca de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa, atrás apenas dos combustíveis fósseis. Um estudo de 2023 publicado na Nature alertou que as emissões relacionadas à produção e ao consumo de alimentos podem adicionar quase 1 °C ao aquecimento global até 2100, um lembrete de que iluminação e ação devem caminhar juntas.
Os pesquisadores criaram uma “superlista” com base em dois indicadores centrais: o alinhamento dos planos climáticos das redes com o Acordo de Paris (meta de 1,5 °C) e o esforço das cadeias para reequilibrar as vendas de proteínas, privilegiando uma dieta rica em vegetais. Transparência e metas mensuráveis são valorizadas: quanto mais ambicioso e transparente o plano, maior a pontuação.
O relatório destaca que, embora alguns grupos surjam como pioneiros, o setor como um todo ainda não explora plenamente seu potencial transformador. “Os supermercados têm o poder de orientar um sistema alimentar mais saudável e compatível com o clima”, diz Charlotte Lineebank, diretora do Questionmark. Ainda assim, especialistas advertem que poucas cadeias demonstram intenções claras de cortar emissões na escala necessária.
Um ponto crucial do diagnóstico é a pegada da carne, especialmente do boi e do cordeiro, identificados pela ciência como grandes responsáveis pelos danos ambientais. Segundo dados do CO2 Everything citados no estudo, uma porção de 100 g de carne bovina equivale a 78,7 km rodados de carro e gera 15,5 kg de CO2e — uma imagem contundente que ajuda a visualizar o impacto individual de escolhas cotidianas.
Embora o relatório observe que as emissões de muitas redes ainda estejam em alta, reconhece também que cerca de dois terços das cadeias admitiram o papel que podem desempenhar na transição para dietas mais vegetais. Países como Alemanha e Países Baixos despontam como motores dessa mudança: redes como Albert Heijn, Lidl (em quatro países), Jumbo, REWE e Aldi Süd mostraram compromissos mais claros para reduzir emissões ao reequilibrar seus portfólios de proteínas.
Até o momento, apenas cinco redes — ICA, Jumbo, Kaufland, Migros e REWE — apresentaram reduções efetivas de emissões após começarem a reportá-las, um sinal de que metas declaradas nem sempre viram resultados concretos. No ranking da superlista, o Lidl nos Países Baixos ocupa a primeira posição, seguido pelo Lidl na Polônia e pelo Albert Heijn nos Países Baixos. No fim da tabela estão E.Leclerc (França), Coop (Suécia) e Aldi Nord (Alemanha).
Como curadora de progresso, enxergo nessa avaliação mais que uma lista de nomes: vejo uma oportunidade de semear inovação nas prateleiras, de iludir novos hábitos e de tecer laços entre produtores, varejo e cidadania. Um horizonte límpido exige que redes iluminem, com metas mensuráveis e transparência, o caminho para dietas menos intensivas em carbono, investimentos em cadeia produtiva regenerativa e comunicação honesta com o público.
O relatório da Questionmark e seus parceiros é um convite à ação: consumidores podem escolher onde colocar seu voto diário, e os supermercados podem traduzir compromissos em métricas reais. A mudança virá quando políticas corporativas, escolhas de compra e responsabilidade regulatória se alinhem em prol de um sistema alimentar que cultiva valores e reduz emissões — um verdadeiro renascimento cultural nas rotas do alimento.






















