Em um diagnóstico pragmático sobre o papel das camadas digitais na proteção do sistema financeiro, Jacopo Berti, CEO da Rozes, afirmou no Ai Festival da Universidade Bocconi, em Milão, que a combinação entre inteligência artificial e pesquisa científica avançada pode gerar “o mais poderoso instrumento do mundo para o combate da atividade criminosa financeira”.
O evento, organizado pela Wmf – We Make Future, chegou à sua terceira edição reunindo representantes do ecossistema tecnológico, autoridades acadêmicas e profissionais do setor financeiro. No palco, Berti articulou uma visão técnica e contida: a tecnologia hoje permite detectar riscos financeiros que antes eram invisíveis ao olhar humano e às regras estáticas de compliance, transformando o fluxo de dados em um verdadeiro sistema nervoso para a prevenção de fraudes.
Do ponto de vista operativo, trata-se de integrar camadas de inteligência — modelos de aprendizado de máquina, análise de redes e detecção de anomalias — sobre alicerces de dados bem governados. Essa arquitetura não é apenas uma coleção de algoritmos: é uma infraestrutura que precisa de instrumentação, pipelines confiáveis e governança robusta para ser efetiva em escala. Como observador das intersecções entre tecnologia e infraestrutura urbana, vejo aqui uma analogia direta com as cidades inteligentes: a mesma lógica que monitora e otimiza o tráfego pode, aplicada ao fluxo financeiro, mapear comportamentos atípicos e cortar caminhos usados para lavagem de dinheiro ou outras práticas ilícitas.
Berti sublinhou que a capacidade de “interceptar riscos financeiros que antes eram invisíveis” representa um ganho direto na proteção do patrimônio dos cidadãos — em outras palavras, na segurança dos nossos poupanças. Mas alertou também para a necessidade de regulação e controles: ferramentas mais potentes exigem regras claras, auditoria e transparência para evitar vieses e preservar direitos civis. A eficácia técnica depende tanto da qualidade dos modelos quanto da qualidade dos dados e dos processos humanos que os supervisionam.
Para o contexto italiano e europeu, a mensagem é dupla: por um lado, há uma oportunidade real de reforçar a resiliência do setor financeiro através da tecnologia; por outro, essa mesma oportunidade exige participação coordenada entre instituições financeiras, reguladores e centros de pesquisa para que a infraestrutura algorítmica funcione como um bem público.
Em suma, a fala de Berti no Ai Festival não foi um apelo ao tecnológico pelo tecnológico, mas uma argumentação baseada em eficiência sistêmica: quando aplicada com governança, a inteligência artificial pode ser a camada decisiva que torna visíveis e neutralizáveis os riscos que hoje escapam às estruturas tradicionais de controle.






















