Por Marco Severini — Em um movimento que exige leitura cuidadosa do tabuleiro diplomático, um porta-voz do ICE (Immigration and Customs Enforcement) confirmou à AFP que agentes do ramo investigativo Homeland Security Investigations atuarão na Itália durante as Olimpíadas de Inverno Milano-Cortina 2026 para apoiar o Serviço de Segurança Diplomática (Diplomatic Security Service) do Departamento de Estado dos EUA. O objetivo declarado é avaliar e mitigar riscos relacionados a organizações criminosas transnacionais.
Fontes da Embaixada dos EUA em Roma já haviam informado, na véspera, que várias agências federais norte-americanas costumam acompanhar missões de segurança em grandes eventos internacionais. Nesse contexto, a presença de especialistas do Homeland Security Investigations segue um padrão de cooperação técnica voltada para inteligência e prevenção — não para a execução de ações de policiamento migratório em solo estrangeiro.
Do lado italiano, o ministro do Interior, Matteo Piantedosi, foi enfático ao declarar que “o ICE enquanto tal não operará no território italiano”. Esta ressalva é crucial: a ordem pública e a segurança dentro das fronteiras italianas permanecem sob a exclusiva competência das autoridades nacionais. Em termos de soberania, trata-se de um alicerce que não se negocia, mesmo quando se aceita a colaboração de aliados em matéria de inteligência.
Em suma, o esquema anunciado coloca o ICE na posição de parceiro técnico — consultivo e de suporte à verificação de riscos — subordinado à coordenação e às decisões das autoridades locais. Assim se evita a colisão entre duas camadas de autoridade: a do anfitrião e a do Estado parceiro. Esse arranjo é comparável a uma jogada de trânsito no tabuleiro internacional, na qual peças especializadas são deslocadas para proteger pontos sensíveis, sem mudar as regras do jogo nem as fronteiras de autoridade.
Para analistas de segurança e diplomacia, há duas linhas a observar: primeiro, a ênfase na prevenção e na troca de inteligência contra redes transnacionais, que representam uma ameaça difusa e mutável; segundo, as implicações políticas internas, onde eventuais mal-entendidos podem ser explorados por narrativas que questionam a autonomia estatal — daí a importância de comunicados claros como o do ministro Piantedosi.
Historicamente, grandes eventos esportivos atraem não apenas a atenção do público, mas também o interesse de atores criminosos que exploram fluxos massivos de pessoas e bens. A presença de especialistas do Homeland Security Investigations deve ser entendida, portanto, como parte de um mosaico de medidas preventivas internacionais, desenhadas para reforçar a resiliência do anfitrião, sem usurpar sua autoridade.
Em termos de diplomacia prática, o episódio demonstra o cuidado necessário na gestão de percepções: cooperação operacional e respeito soberano devem caminhar juntos como as colunas de um templo clássico — se uma falhar, toda a estrutura fica vulnerável. O desafio para Roma e Washington será manter essa arquitetura intacta, com transparência e limites bem definidos.
Em conclusão, a chegada de agentes do ICE vinculados ao Homeland Security Investigations é um movimento técnico-estratégico integrado à segurança das Olimpíadas. Mas, no grande tabuleiro da geopolítica, a Itália reafirma — com voz firme — que a última palavra sobre operações em seu território pertence às suas instituições.
















