Há seis anos, a Itália registrou os primeiros casos confirmados de Sars-CoV-2 no seu território: a coppia cinese Xiangming Liu e Yamin Hu, internados no dia 29 de janeiro de 2020 no instituto Spallanzani de Roma. A lembrança desses dias, marcada por incertezas e resposta hospitalar imediata, permanece um marco para o início da pandemia no país e na Europa.
O relato clínico então registrado indica que o marido apresentou uma pneumonia intersticial bilateral ao ser admitido, enquanto a esposa começou com sintomas leves e posteriormente evoluiu para quadro mais grave. Ambos receberam tratamento com antivirais combinados e corticoide. Após internação e fases de reabilitação — com passagem pelo San Filippo Neri entre março e abril — o casal foi liberado em 21 de abril e pôde retornar à China. Em agradecimento, a dupla valorizou o atendimento do Spallanzani e, meses depois, houve registro de uma doação de reconhecimento.
Seis anos após, a presença do Sars-CoV-2 no cotidiano da saúde pública italiana aparece de forma residual: constata-se registro em boletins semanais de vigilância, ao lado de outros vírus respiratórios, e a Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a gestão da Covid prossegue com audiências. A memória técnica, no entanto, tem sido tratada com prioridades distintas nas esferas políticas.
Em avaliação para esta reportagem, o infectologista Massimo Galli, ex-diretor do setor de Doenças Infecciosas do hospital Sacco, traça um diagnóstico crítico sobre a gestão política da fase pós-pandemia. Segundo Galli, há um movimento transversal entre responsáveis políticos no sentido de esquecer ou manusear com cautela a experiência vivida: “prefere-se o esquecimento”. Ele aponta também para a “extremização” do comportamento em outros contextos, citando os Estados Unidos, a retirada de apoio à OMS e cortes em linhas de pesquisa que, na sua percepção, enfraqueceram a capacidade internacional de resposta.
O especialista chama atenção para efeitos duradouros: as vacinas de mRNA, desenvolvidas em tempo recorde para combater a Covid, abriram caminhos que hoje prometem avanços terapêuticos em doenças como melanoma e câncer de pulmão. Por outro lado, os cortes de financiamento e decisões políticas erráticas podem comprometer filões científicos essenciais no futuro.
Quanto ao risco de uma eventual doença X, Galli considera plausível a hipótese de salto de espécie de agentes aviários, citando preocupação com a H5N1. Ele lembra episódios recentes em que rebanhos foram afetados e ressalta que múltiplos cenários epidemiológicos permanecem possíveis: “É possível, como existem outras dezenas de possibilidades”, afirma, em linha com o cruzamento de fontes clínicas e epidemiológicas que guiaram sua análise.
Da apuração in loco aos documentos clínicos e às memórias institucionais, a mensagem que se impõe é de vigilância sustentada: a pandemia mostrou o valor da ciência aplicada rapidamente, mas também expôs fragilidades políticas e organizacionais. A leitura desses seis anos, feita com rigor técnico e cruzamento de fontes, indica que a lição não pode ser relegada ao esquecimento se o objetivo for reduzir riscos futuros e preservar a capacidade de pesquisa e resposta.
— Giulliano Martini, correspondente e repórter de apuração, cruzamento de fontes e fatos brutos sobre saúde pública.






















