Por Chiara Lombardi — Emociona pensar como a ficção de época funciona como um espelho do nosso tempo. Na nova temporada de Bridgerton, a máquina de intrigas da corte de Queen Charlotte volta a pulsar com sarcasmo e sedução: a pena afiada de Lady Whistledown e os sussurros das festas voltam a compor o cenário onde desejos privados colidem com regras públicas.
Adaptada pela equipe da Shondaland a partir do terceiro romance de Julia Quinn, La Proposta di un Gentiluomo (conhecido em inglês como The Viscount Who Loved Me), a quarta temporada coloca no centro da narrativa o irmão mais velho dos Bridgerton: Benedict, o dandy libertino cuja busca pelo amor funciona, aqui, como um dispositivo para questionar as fronteiras de classe e honra na Regency Era londrina.
São oito episódios — e os primeiros quatro chegam ao catálogo da Netflix em 29 de janeiro. Essa divisão inicial, hoje já conhecida pelo público que acompanha lançamentos seriados, transforma a recepção: o espectador experimenta um prólogo concentrado, quase como um corte de câmera, que permite ao enredo respirar e ao mesmo tempo controlar o ritmo do olhar coletivo.
No cerne da temporada está um duelo não apenas amoroso, mas social. Benedict emerge como um protagonista que desafia o status quo — não com discursos programáticos, mas pela simples ética de seus afetos, pela recusa em reduzir relacionamentos a mercadorias sociais. É essa tensão, entre o afeto livre e as regras de sangue e fortuna, que transforma a série em mais do que entretenimento: um pequeno ensaio sobre hierarquias.
Olhar para Bridgerton como um espelho cultural implica perguntar por que, em 2026, nos sentimos tão atraídos por histórias de códigos sociais. A resposta talvez esteja na capacidade das narrativas históricas de reframe: elas oferecem um cenário seguro para revisitar memórias coletivas e reescrever sentidos sobre identidade e pertencimento. A corte de Queen Charlotte continua, portanto, a ser um palco onde o entretenimento encontra a semiótica do nosso tempo.
Do ponto de vista estético, a produção mantém a assinatura sensorial que tornou a série um fenômeno: cenários opulentos, figurinos que dialogam com tradição e invenção, e uma trilha que, como trilha sonora de um filme, dá subtexto a cada escândalo. Mas o que brilha nesta temporada é a escolha narrativa de colocar Benedict frente a uma questão política — o classismo — tratada com a delicadeza de quem sabe que a persuasão maior vem do afeto, não do sermão.
Para os fãs e para os curiosos da cultura pop, a estreia parcial em 29 de janeiro é um convite: revisar o entretenimento não como fuga, mas como laboratório de sentidos. Prepare-se para ver a Penha de Lady Whistledown em ação, para seguir os passos de Benedict pelos salões e para perceber, por baixo do brilho, o roteiro oculto da sociedade que a série está disposta a desvelar.
Estreia: os primeiros quatro episódios estarão disponíveis na Netflix a partir de 29/01; a temporada completa terá oito episódios.

















