Balletto della Scala conquistou Pequim sob a cúpula de titânio e vidro do Teatro dell’Opera di Pechino, a poucos passos da praça Tiananmen, com a estreia chinesa do Don Chisciotte de Rudolf Nureyev. Ao final da apresentação, a companhia foi ovacionada por cerca de dez minutos — um clímax que funciona também como espelho do nosso tempo: o ballet não é apenas técnica, é narrativa cultural exportada.
O calor do público recaiu em especial sobre o casal protagonista: a étoile Nicoletta Manni, no papel de Kitri, e seu marido, o primeiro bailarino letão Timofej Andrijashenko, encarnando Basilio, o barbeiro guascone que Nureyev moldou sobre o seu próprio carisma. A química no palco foi perceptível como um close que revela mais do que os passos — revela identidade, presença e história.
O Don Chisciotte é um dos dois títulos escolhidos por Frédéric Olivieri, diretor do balé, para apresentar a versatilidade do corpo de baile da Scala na turnê pela China, realizada entre 21 e 25 de janeiro. O outro programa, de matriz contemporânea, foi a refinada Serata William Forsythe – The Blake Works, que na temporada milanesa já havia destacado a excelência técnica e interpretativa da companhia.
Há algo de roteiro oculto na decisão de levar esses dois repertórios à China: o clássico de Nureyev representa a tradição e o carisma histórico da escola europeia, enquanto Forsythe encena o reframe da dança contemporânea, um eco cultural que dialoga com um público em plena transformação. A última vez que a Scala abriu uma turnê na China foi há vinte anos, quando o ballet fez sua primeira e memorável apresentação em Pequim; mais recentemente, a companhia esteve novamente na capital chinesa há dois anos.
De volta ao palco do Piermarini, o Corpo de Ballo será esperado em Milão nos dias 31 de janeiro e 3 de fevereiro para o Gala Fracci, que pela primeira vez foi duplicado em duas noites para celebrar os cinco anos desde a morte da divina Carla Fracci. A dupla programação funciona como uma memória coletiva encenada — e também como um gesto teatral que convida o público a revisitar legados.
Do ponto de vista semiótico, a recepção em Pequim confirma uma tendência: o público internacional responde tanto à volta da canonicidade quanto à reinvenção. A ovação prolongada à Scala não é apenas reconhecimento técnico, é uma tradução emocional — o aplauso como legenda de uma diplomacia cultural que circula além das fronteiras e das línguas.
Em cena, Nicoletta Manni ofereceu uma Kitri que mescla tradição italiana e presença moderna; Timofej Andrijashenko deu a Basilio o tempero bravissimo que lembra a figura carismática de Nureyev. A companhia inteira, de passos e silhuetas, reafirmou por que o repertório clássico e as propostas contemporâneas continuam dialogando entre si: é daí que nasce a vitalidade do espetáculo vivo.
Para quem observa o movimento cultural com olhos de crítica e afeição, como eu, fica claro que essas turnês são mais que apresentações: são pequenas histórias de consumo simbólico que narram quem somos quando nos vemos refletidos por outra plateia, em outro continente. O triunfo da Scala em Pequim é, portanto, também um convite para ler o que o palco nos devolve sobre nossos próprios tempos.
Data do espetáculo: 21–25 de janeiro de 2026. Reportagem original inspirada em matéria publicada por Valeria Crippa no Corriere della Sera (27/01/2026).


















