Por Giulliano Martini — Em cerimônia realizada no Ghetto di Roma, autoridades políticas e representantes da comunidade judaica italiana marcaram o Dia da Memória com discursos que mesclaram homenagem às vítimas da Shoah e alertas sobre a persistência de episódios de ódio e intolerância. A ação institucional ocorreu com a tradicional deposição de coroas diante do Museu da Fundação Museu da Shoah, no Portico d’Ottavia, núcleo histórico da comunidade judaica da capital.
O presidente do Senado, Ignazio La Russa, afirmou: “Em ocasião do Dia da Memória rendemos homenagem às vítimas da Shoah, a maior tragédia do século XX, causada por um ódio cego e bárbaro contra o povo judeu”. Na mesma linha, La Russa defendeu que a data não se esgote em ritos formais, mas se converta em “ocasião de reflexão e responsabilidade”, capaz de manter viva, de forma contínua, a memória e os valores de tolerância e respeito. Ele renovou “solidariedade ao povo judeu” e insistiu na necessidade de manter “alta a guarda diante do ressurgimento de vergonhosos e inaceitáveis surtos racistas, antissemitas e antissionistas”.
A primeira-ministra Giorgia Meloni ressaltou, durante a cerimônia, a importância de recuperar “nomes e sobrenomes” das vítimas e de preservar a memória também por meio dos relatos dos sobreviventes e de seus descendentes. Em declaração direta, Meloni reafirmou a condenação da “cumplicidade do regime fascista nas perseguições, nos rastreamentos e nas deportações”, identificando nas leis raciais de 1938 um marco de ignomínia na história italiana.
A presença institucional foi ampla. Representaram a comunidade judaica o presidente da Comunidade Judaica de Roma, Victor Fadlun, a presidente da UCEI, Noemi Di Segni, e o rabino Jacov Di Segni. Pelo Campidoglio compareceu a vice-prefeita Silvia Scozzese; pela Região Lazio, a vice-presidente Roberta Angelilli e a responsável pela Cultura, Renata Baldassarre. Também participou o prefeito de polícia local, o prefeito representativo e o prefeito de Roma, Lamberto Giannini, reforçando o caráter cívico e institucional do ato.
Em pronunciamento que misturou luto e simbolismo, Victor Fadlun comentou o recente episódio ligado ao conflito no Médio Oriente: ao lado das cerimônias de hoje, ele citou o rilascio do corpo do último refém do ataque de 7 de outubro como um momento que indica, ainda que dolorosamente, uma etapa de encerramento de um período de sofrimento. Em gesto carregado de significado, Fadlun depositou no muro da Sinagoga de Roma a medalha com o laço amarelo — tornada, nos últimos meses, símbolo da campanha pela libertação dos reféns — para representar, simbolicamente, o fim das dores provocadas pela detenção por parte de Hamas.
O tom das declarações foi marcado pela firmeza institucional: reafirmações de memória, pedidos de vigilância permanente e a condenação explícita da participação estatal e social na máquina persecutória do passado. Como resumo da apuração in loco e do cruzamento de fontes, a leitura dos discursos e os atos protocolares deixaram claro que o compromisso oficial é duplo: preservar a memória histórica da Shoah e manter ativa a resistência a todos os sinais contemporâneos de antissemitismo e de retomada de ideologias fascistas.
O Dia da Memória em Roma cumpriu, portanto, a sua função mínima de registro histórico e a sua função cívica de alerta: lembrar para prevenir. A cerimônia no Ghetto reforçou a narrativa pública de que a memória não é apenas celebração, mas ferramenta de responsabilização e vigilância democrática.






















