Por Alessandro Vittorio Romano — Uma nova paisagem de cuidados para quem convive com a gota começa a despontar: medicamentos usados para reduzir o ácido úrico no sangue, quando administrados com metas claras, mostram associação com menor risco de infarto e ictus (AVC). A evidência vem de um estudo da University of Nottingham, publicado na revista JAMA Internal Medicine, que nos lembra como a saúde do corpo está entrelaçada com o ritmo das nossas rotinas — como se o coração e as articulações compartilhassem a mesma respiração.
Coordenada pelo professor Abhishek Abhishek, a pesquisa analisou dados do repositório britânico Clinical Practice Research Datalink Aurum, conectados a registros hospitalares e de mortalidade entre 2007 e 2021. Quase 110.000 adultos com diagnóstico de gota e níveis iniciais de uricemia acima do recomendado foram incluídos. A técnica usada, um modelo de “trial emulado”, comparou pacientes que atingiram a meta terapêutica dentro de 12 meses com os que não alcançaram.
O objetivo do tratamento foi reduzir a uricemia abaixo de 360 micromol/L (6 mg/dL) — e, quando possível, abaixo de 300 micromol/L (5 mg/dL). Os resultados foram claros: quem seguiu a estratégia treat to target apresentou maior sobrevida aos cinco anos e risco significativamente menor de eventos cardiovasculares maiores, incluindo infarto, ictus e óbitos por causas cardiovasculares. O benefício foi ainda mais pronunciado entre pacientes com risco cardiovascular alto ou muito alto. Pacientes que atingiram níveis abaixo de 300 micromol/L tiveram redução ainda mais intensa do risco.
Na prática clínica, os fármacos hipouricemizantes — sobretudo o allopurinol — foram os mais utilizados. Segundo Abhishek, “além de prevenir crises de gota, essa estratégia terapêutica oferece um benefício adicional na redução do risco de infarto e AVC”. É a primeira evidência robusta de que o uso correto desses medicamentos pode ter impacto direto na saúde cardiovascular.
Como observador atento dos ciclos da vida, penso nessa descoberta como uma colheita de hábitos: ao direcionar o tratamento para metas claras, colheremos não apenas menos dores articulares, mas também um horizonte cardiológico mais sereno. A mensagem prática é dupla — por um lado, reforça o valor de um acompanhamento personalizado; por outro, destaca a importância de metas terapêuticas bem definidas na rotina do paciente.
Os autores concluem que o tratamento da gota deve ser pensado não só para conforto articular, mas como uma estratégia de prevenção cardiovascular a longo prazo. Na tessitura das estações do corpo, reduzir o ácido úrico é uma ação que floresce em bem-estar. Pacientes e médicos são convidados a conversar — com calma e atenção — sobre metas, doses e seguimento, transformando o cuidado em um caminho sustentável rumo a uma vida mais saudável.
Nota: O estudo observacional usa um desenho que aproxima ensaios clínicos, mas novas pesquisas poderão reforçar mecanismos e protocolos ideais. Enquanto isso, a prática clínica deve equilibrar benefícios e riscos sob supervisão médica.






















