Por Giulliano Martini — Em entrevista telefônica na véspera do Dia Internacional da Memória, a escritora e jornalista Lia Levi, 94 anos, descreve com voz firme a sensação de urgência diante da ascensão do antisemitismo e da erosão da memória coletiva. Sobrevivente da Shoah, Levi mantém há décadas encontros com estudantes para relatar os fatos brutos de sua infância durante a Segunda Guerra Mundial.
Levi recorda que, após o armistício de 8 de setembro de 1943, conseguiu salvar-se das deportações permanecendo escondida por dez meses no internato das Suore di San Giuseppe di Chambéry, em Roma, acompanhada das irmãs Gabriella e Vera e da mãe Leontina. Essa experiência, segundo ela, atravessou depois sua obra — dezenas de livros para adultos e jovens — e orienta sua decisão de continuar a falar em escolas, apesar do cansaço e da perda de compromissos recentemente cancelados em razão do recrudescimento do ódio na sociedade.
Questionada sobre o estado atual da lembrança da Shoah, Levi foi direta: “A memória está em crise. Tornou-se uma espécie de caixa vazia em que se encaixa qualquer sofrimento.” A frase traduz o diagnóstico que ela fez durante o nosso raio-x do cotidiano: a relativização dos eventos históricos corrói a compreensão pública e faz um desserviço à cultura e ao ensino.
O relato das primeiras perdas pessoais permanece vívido. “Lembro o dia em que não pude mais ir à escola. Eu estava na primeira série. Minha mãe me disse com cautela que teria de renunciar às aulas porque Benito Mussolini não queria crianças judias na escola. Eu era tão pequena que pensei, no começo, que fosse um presente. Só mais tarde, quando vi meu pai perder o emprego, compreendi.”
O episódio do internato também marcou a escritora: mudou de nome e de prática religiosa, aprendeu orações que lhe foram impostas, e conserva a lembrança do momento em que as freiras a instruíram a se despedir da mãe — um gesto que ela define como a sensação de ter sido “abandonada” em uma cidade estranha.
Sobre seu último livro, Il sentiero di pietre blu, escrito em colaboração com o neto Simone Calderoni, Levi clarifica o alcance do gesto: não se trata de transferir a memória por obrigação familiar, mas de “passar o testemunho” a todos que sabem ouvir. “Não existem herdeiros obrigatórios da lembrança”, disse. “Passamos o que vivemos a quem tem capacidade de escuta.”
Como repórter que pratica o cruzamento de fontes, procurei situar o depoimento de Levi no contexto mais amplo: ela mantém compromissos com escolas e instituições, apesar de encontros cancelados por causa do recrudescimento de manifestações antissemitas. O fato confirma um padrão identificado em relatórios recentes sobre incremento de atos de ódio na Europa e na Itália, sublinhando a necessidade de transformar testemunhos pessoais em ensino histórico sistemático.
Conclui Levi, com a precisão de quem há décadas traduz experiências em narrativa: “Não é mais tempo de emoções soltas; precisamos recuperar a História com H maiúsculo. É um trabalho urgente e necessário.” A frase encerra a entrevista sem floreios — como exige a prática jornalística focada na verdade documental.
Fatos checados: Lia Levi, nascida em 1931, sobreviveu à perseguição racial na Itália durante a Segunda Guerra Mundial; foi acolhida no internato das Suore di San Giuseppe di Chambéry; tem vasta produção literária para diferentes faixas etárias; seu livro mais recente, citado na entrevista, é fruto de colaboração com o neto Simone Calderoni.






















