Por Marco Severini — Em um movimento que remete a um lance decisivo no tabuleiro da política migratória norte-americana, Tom Homan foi designado para coordenar operações de deportação em Minnesota, após episódios recentes envolvendo agentes da Border Patrol em Minneapolis. A porta-voz do Departamento de Segurança Interna, Tricia McLaughlin, deixou claro que Gregory Bovino “não foi removido do cargo”, mas a decisão de reposicionar comandantes e contingentes já está tomada: parte do efetivo local deixará a cidade e Homan deve chegar para assumir a supervisão direta das ações.
Argumento e experiência moldam a escolha. Com 64 anos, Tom Homan retorna ao centro da cena como o autodenominado “zar das fronteiras” — uma designação que traduz tanto autoridade operacional quanto visibilidade política em uma administração que prioriza a repressão à migração irregular. Escolhido por Donald Trump para reportar diretamente sobre o andamento das operações, Homan combina décadas de experiência com um perfil de linha dura que, ao longo do tempo, se consolidou em símbolos e resultados: sob sua coordenação, os Estados Unidos atingiram o pico histórico de 432 mil deportações em 2013.
A carreira de Homan começa em 1984 como agente da Border Patrol. Em 2003, com a reorganização da segurança nacional pós-11 de setembro, ele migra para a Immigration and Customs Enforcement (ICE). Sob a administração de Barack Obama, liderou o escritório de Enforcement and Removal Operations (ERO), responsável pela identificação e expulsão de pessoas com ordens de deportação definitivas. Apesar de um perfil público, por vezes, discreto, Homan tornou-se uma peça-chave das políticas de retorno; em 2015 recebeu um Presidential Rank Award em reconhecimento à eficácia de sua gestão.
O retorno ao centro do poder não foi linear. Em janeiro de 2017, momentos em que anunciava sua aposentadoria, o então indicado secretário à Segurança Interna, John Kelly, persuadiu-o a permanecer. Aceitou após breve reflexão e, nos quatro anos seguintes da primeira administração Trump, transformou-se em um rosto reconhecível das medidas mais duras contra a imigração irregular. Ainda assim, um dado estratégico chama a atenção: embora a retórica fosse mais agressiva, as deportações anuais sob Trump nunca ultrapassaram as 350 mil — abaixo do recorde alcançado sob coordenação de Homan em 2013.
Conhecedor do terreno operacional, Homan tem sustentado publicamente que quem se encontra nos Estados Unidos sem autorização deve esperar a aplicação da lei, sem exceções baseadas simplesmente em laços familiares ou tempo de permanência. A frase — direta, quase cartesiana — resume uma filosofia pragmática e de risco calculado: “Se você está aqui ilegalmente, deveria estar preocupado”.
Não obstante a linha dura, o novo czar das fronteiras históricamente rejeitou narrativas simplistas: negou repetidamente a implementação de raids indiscriminados ou a criação de campos de detenção em massa, argumentos muitas vezes usados por críticos para paralisar o debate. Essa ambivalência revela o estilo de um gestor que pretende operar com disciplina — e que, por isso, o escolheu-se para uma missão sensível em Minnesota, onde as tensões recentes culminaram na morte de dois cidadãos americanos e expuseram os alicerces frágeis da diplomacia interna entre forças da ordem e comunidades.
Do ponto de vista geopolítico, a nomeação de Tom Homan é um movimento que redesenha fronteiras invisíveis: é um gesto de centralização do controle, mas também uma aposta na disciplina institucional para restaurar a ordem. Em linguagem de xadrez, trata-se de posicionar uma peça de peso no centro do tabuleiro para defender a ala e, ao mesmo tempo, sinalizar intenção para o adversário. No curto prazo, Minnesota verá uma retrabalhada operativa; no médio prazo, a decisão fará eco nos debates sobre migração, credenciais de autoridade e os limites da ação executiva na arena doméstica.
Enquanto a chegada de Homan se materializa, resta observar se sua presença conterá a escalada de violência e reequilibrará a tectônica de poder entre cidades, estados e o governo federal — ou se, ao contrário, ampliará fissuras já existentes numa arquitetura institucional que precisa ser reconstruída com prudência e estratégia.






















