Na noite de segunda-feira, 26 de janeiro, o VI Município de Roma acolheu a apresentação do volume Hammamet ricorda Bettino, publicado pela editora Solfanelli. O livro busca oferecer uma leitura mais humana e historicamente detalhada dos últimos anos de vida de Bettino Craxi, aqueles passados em exílio na Tunísia. Trata-se de um capítulo complexo e controverso da história política italiana, contado pelas vozes e testemunhas do próprio povo de Hammamet, que acompanharam o ex-primeiro-ministro em seus dias finais.
O encontro ocorreu na Sala Cinema Cerone e registrou uma participação numerosa e atenta, evidenciando o interesse persistente em torno da figura de Craxi e das narrativas sobre a temporada de Tangentopoli. O debate teve ritmo vivo, alternando testemunhos diretos e reflexões de cunho histórico e político, capazes de abrir novas chaves de leitura sobre um dos protagonistas mais controversos da Primeira República.
Entre os presentes, destacou-se a senadora Stefania Craxi, primogênita do ex-secretário do Partido Socialista Italiano e atual presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa do Senado (Palazzo Madama). A sua participação deu ao evento um caráter institucional relevante. A moderação ficou a cargo do editorialista de La Stampa, Fabio Martini.
Compuseram ainda o painel nomes como o vice-presidente da Câmara dos Deputados, Fabio Rampelli, o presidente da associação Amici del Garofano Rosso, Donato Robilotta, e os promotores locais Nicola Franco e Romano Amato — este último assessor do VI Município. Os oradores remontaram ao perfil político de Craxi e também avaliaram a herança deixada pelos líderes socialistas no debate público e institucional contemporâneo.
As declarações de Rampelli, Franco e Amato chamaram atenção por uma convergência incomum: apesar de nunca terem votado no PSI e de terem sido críticos durante a fase de Mani Pulite, os três reconheceram hoje a estatura política e os méritos históricos de Craxi. “Embora tenhamos sido críticos durante Mani Pulite, precisamos fazer um mea culpa e reconhecer seus méritos”, disseram quase em uníssono, um gesto que ganha significado no contexto atual.
Esse reconhecimento surge em um cenário político marcado pelo debate sobre a reforma da justiça, qualificado por muitos como uma disputa de caráter “epocal” e diretamente conectado às feridas políticas abertas em Tangentopoli. Ao longo da noite, a temporada de investigações e processos dos anos 1990 foi reiterada como divisor de águas na arquitetura institucional da República, um alicerce que molda hoje as propostas legais em discussão.
Os autores do livro, Salvatore Di Bartolo e Roberto Giuliano, estiveram presentes e expuseram os métodos de pesquisa e a coleta de testemunhos que embasam o volume. A iniciativa em Roma replicou o êxito obtido em outras etapas de divulgação, reforçando o interesse por narrativas que conectam memórias locais — a comunidade de Hammamet — com decisões políticas tomadas em Roma.
Como repórter, vejo nesses encontros a função de construir uma ponte entre a história e a cidadania: decifrar o peso da caneta que escreveu aqueles capítulos e explicar como esses alicerces históricos continuam a afetar direitos e procedimentos hoje. O livro e o debate em Roma são parte dessa construção — um esforço para derrubar barreiras burocráticas e aclarar a arquitetura do voto e da justiça que regem a vida pública italiana.
Em suma, a apresentação confirmou que a figura de Bettino Craxi permanece viva no imaginário político e que a reavaliação histórica pode alterar a compreensão pública sobre episódios determinantes da república. O diálogo entre memória, testemunho e análise política segue sendo essencial para que cidadãos e instituições compreendam os fundamentos das decisões de ontem e de hoje.






















