Por Marco Severini — Uma nova movimentação no tabuleiro geopolítico da península coreana: o Exército da Coreia do Sul informou que a Coreia do Norte lançou um “projétil” em direção ao Mar do Japão (conhecido na Coreia como Mar do Leste). O Ministério da Defesa do Japão também publicou em sua conta na rede X a detecção de um suposto lançamento de míssil balístico por parte de Pyongyang.
Em comunicado separado, o Estado‑Maior Conjunto das Forças Armadas sul‑coreanas afirmou que foi identificado ao menos um projétil não identificado lançado para o leste, sem fornecer, por ora, detalhes adicionais sobre trajetória, tipo ou destino do artefato.
Se a natureza balística do disparo for confirmada, tratar‑se‑ia do segundo teste de mísseis realizado por Pyongyang desde o início do ano, evidenciando continuidade na campanha de ensaios que vem sendo intensificada nos últimos anos. Relatórios de centros de estudo estratégicos, como o CSIS (Center for Strategic and International Studies), apontam para a construção de bases operacionais de mísseis não declaradas, peças de uma infraestrutura que foge aos supostos processos de desnuclearização.
Na primeira semana de janeiro, o regime norte‑coreano lançou uma salva de mísseis apenas horas antes da partida do presidente sul‑coreano Lee Jae‑myung rumo a uma cúpula na China, num gesto que analistas interpretaram como intenção de enviar sinais estratégicos em múltiplas direções. A campanha de testes tem objetivos claros: aperfeiçoar capacidades de ataque de precisão, desafiar os posicionamentos militares dos Estados Unidos e da Coreia do Sul, e preparar sistemas que, segundo estimativas, possam vir a ser comercializados ou transferidos a atores externos.
O quadro interno de Pyongyang acrescenta uma camada interpretativa: o Partido dos Trabalhadores da Coreia prepara um congresso — o primeiro em cinco anos — onde serão traçados os planos econômicos e militares para o próximo quinquênio. Em antecipação a esse encontro, o líder Kim Jong Un ordenou a expansão e modernização da capacidade de produção de mísseis do país.
Quanto ao arsenal nuclear, estimativas da FAS (Federation of American Scientists) de 2024 indicam que a Coreia do Norte possui material suficiente para fabricar até 90 ogivas nucleares, embora o número de dispositivos efetivamente montados seja provavelmente mais baixo, na ordem de cerca de 50.
Do ponto de vista estratégico, este lançamento recente é menos um evento isolado do que uma jogada dentro de uma sequência calculada: Pyongyang altera discretamente os alicerces da diplomacia regional, testando limites de aparato defensivo e sinais políticos. Para Seul, Tóquio e Washington, a questão é dupla — como melhorar a prontidão e, simultaneamente, impedir que essas capacidades se consolidem como moeda de barganha ou item de exportação militar.
As repercussões imediatas previsíveis incluem avaliações de inteligência aceleradas, coordenação trilateral entre Coreia do Sul, Japão e Estados Unidos, e mensagens de dissuasão em diferentes registros: públicas, militares e discretas. Num tabuleiro em que a tectônica de poder se rearranja por meio de gestos técnicos e simbólicos, a prudência diplomática e a firmeza estratégica serão os instrumentos que definirão se teremos escalada ou contenção.
Atualizações serão necessárias conforme análises balísticas e trajetórias sejam confirmadas pelas agências competentes.






















