Relatório anual do Observatório de Lampedusa ligado ao programa Mediterranean Hope confirma, com base em apuração in loco e cruzamento de fontes, que a rota do Mediterrâneo segue como uma das mais letais do mundo. O documento, compilado pelo Programa refugiados e migrantes da Federação das igrejas evangeliche in Italia (FCEI), aponta que em 2025 morreram ao menos 1.314 pessoas no Mediterrâneo central e 1.878 ao longo de toda a rota mediterrânea.
O princípio de 2026 já registra continuidade desse quadro trágico. O Observatório MH‑FCEI contabilizou, desde o início do ano, naufrágios repetidos com pelo menos 48 mortos confirmados, 101 desaparecidos e outros incidentes ainda em investigação. Testemunhos de sobreviventes, colhidos no molo e no hotspot de Lampedusa, descrevem viagens forçadas, deportações no deserto e condições de sofrimento extremo. O relatório sublinha que a morte no mar deixa de ser evento acaso para revelar-se consequência previsível de políticas de contenimento e respingimentos.
Dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM) referentes à Líbia mostram aumento nos retornos forçados: em 2025, 27.116 pessoas foram intercettadas e devolvidas à Líbia, contra 21.762 em 2024 e 17.190 em 2023. O relatório alerta que esse número pode ser subestimado, dado que, na Líbia, as pessoas em movimento sofrem sistematicamente graves violações de direitos humanos.
Relatos do serviço de alerta Alarm Phone documentam múltiplos casos em que embarcações em perigo foram posteriormente levadas de volta à Líbia em operações que, segundo o relatório, violam o direito internacional: intercetações violentas, disparos contra embarcações e manobras que resultaram em naufrágios. O documento cita incidentes concretos ocorridos em 2025. Em 4 de junho, a vela Madleen, em viagem para Gaza, assistiu à interceptação de uma embarcação pela guarda costeira líbia — quatro pessoas sobreviveram ao alcançar a Madleen. Entre 20 e 21 de agosto, dez pessoas foram atiradas ao mar a partir de um inflável militar; pouco depois, a Ocean Viking, operada pela SOS Mediterranee em coordenação com IFRC, sofreu disparos de uma motovedeta líbia. Em 26 de setembro, a Sea‑Watch 5 foi alvo de tiros durante um socorro. Em 1º de dezembro, uma embarcação do tipo TS‑300, doada pela Itália à Líbia em 2023, disparou vários tiros na água e no ar a cerca de 200 metros da Louise Michel.
Frente a esse padrão de violações, a chamada flotta civile optou por manter intervenções no mar com objetivo claro: salvar vidas, documentar violações e impedir respingimentos para contextos onde há sistemáticas violações de direitos humanos. Ao mesmo tempo, o coletivo suspendeu qualquer colaboração com autoridades cuja atuação contribui para o agravamento do risco de morte no mar.
O relatório reafirma um quadro técnico e implacável: as estatísticas não são meros números, mas o registro de políticas que transformam travessias em zonas de morte. A apuração, baseada em testemunhos diretos, registros de organizações de socorro e dados oficiais da OIM, indica que a mortalidade é parte de um sistema de contenção que precisa ser enfrentado com medidas que priorizem salvamento, observância do direito marítimo e respeito aos direitos humanos.
Em termos práticos, a evidência reunida pelo Observatório de Lampedusa e parceiros pede uma revisão imediata das práticas de interceptação e devolução, maior proteção nas rotas e garantia de acesso humanitário. Até que haja mudança de políticas, o Mediterrâneo permanecerá uma rota de alto risco, com consequências mensuráveis e irreparáveis para quem tenta atravessá‑lo.






















