Por Marco Severini — Espresso Italia
Em um movimento que desenha um novo capítulo na tectônica de poder europeia, a guerra na Ucrânia registra um agravamento simultâneo no campo de batalha e nas mesas de negociação. As forças russas intensificaram as operações ofensivas rumo a Pokrovsk e ampliaram a pressão sobre Myrnograd, enquanto a cidade de Odessa sofreu, durante a noite, um ataque massivo com drones que deixou ao menos 22 feridos e danos significativos a infraestruturas civis.
No terreno, relatos das forças armadas ucranianas, citados pela imprensa local, apontam para um acúmulo de equipamento pesado na área de Novogrodivka, preparação para uma ofensiva direcionada à parte alta de Myrnograd. Os combates prosseguem em diversos assentamentos; a parte norte de Myrnograd registra operações ofensivas russas mais intensas, e confrontos continuam na área central da cidade. Há, portanto, um redesenho — ainda que local — do mapa tático no leste ucraniano. Em termos de cartografia militar, trata-se de um movimento ressacado que visa desgastar defesas e abrir eixos de manobra.
No plano diplomático, o presidente Volodymyr Zelensky anunciou que novos negócios trilaterais começam em 1º de fevereiro, em Abu Dhabi, envolvendo Kiev, Moscou e Washington. A data assume caráter simbólico e prático: é a tentativa de converter pressão militar em plataforma negociadora, um típico movimento de xadrez onde a iniciativa no tabuleiro busca traduzir-se em vantagem nas tratativas.
Paralelamente, a Casa Branca negou categoricamente relatório do Financial Times que sustentava que os Estados Unidos teriam condicionado garantias de segurança à renúncia de Kiev às reivindicações territoriais. A vice-porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, refutou a reportagem, que citava fontes anônimas alegando que Washington ofereceria garantias e até maior fornecimento de armamento caso a Ucrânia aceitasse concessões territoriais. A controvérsia revela os alicerces frágeis da diplomacia: a lógica de troca de territórios por segurança remete a equações históricas que as nações tentam, com parcimônia, evitar exibir publicamente.
Do lado russo, o chefe do Estado‑Maior, o general do exército Valery Gerasimov, inspecionou tropas no leste da Ucrânia poucos dias antes da reunião trilateral. Conforme nota do Ministério da Defesa russa, Gerasimov ouviu relatórios do comandante do grupo tático, o coronel-general Sergey Kuzovlev, sobre a situação operacional. A visita engenha mensagem dupla: reforça a moral das forças e envia sinal ao interlocutor internacional sobre a determinação russa em manter vigor ofensivo.
Em Odessa, o ataque com drones provocou ao menos 22 feridos, segundo Serhi Lisak, chefe da administração militar local. Entre os feridos, 14 foram atendidos no local e não apresentam gravidade imediata. O bombardeio danificou edifícios residenciais, um asilo, um comércio, um canteiro de obras e uma igreja no centro; causou incêndios de grande porte e obrigou evacuações, incluindo o resgate de um criança. Serviços de emergência trabalharam desde o anoitecer para socorrer vítimas e controlar os incêndios.
Por fim, em Bruxelas, a União Europeia mantém a trajetória de desassociação energética da Rússia: o bloco confirmou metas para reduzir e eventualmente interromper a importação de gás russo até 2027. Trata‑se de um redesenho de influência estratégica que afeta prazos, logística e a própria arquitetura das garantias de segurança no continente.
O cenário é, portanto, composto por duas frentes intimamente ligadas: o aumento da pressão militar que testará linhas defensivas no leste e o jogo diplomático que tentará converter desgaste em acordos. Como em um tabuleiro de xadrez, cada movimento — militar ou diplomático — convoca respostas que redesenham fronteiras visíveis e invisíveis de poder.
Marco Severini é analista sênior em geopolítica e estratégia internacional para a Espresso Italia.


















