White Entropy: a montanha frágil entre pureza e dissolução
Por Chiara Lombardi — Em diálogo com a Olimpíada Cultural de Milano Cortina 2026, nasce White Entropy, a nova exposição de Jacopo Di Cera — curadoria de Massimo Ciampa — que propõe um olhar zenital sobre a montanha como corpo, memória e espelho do nosso tempo. As imagens não celebram apenas a beleza alpina; elas invertem o enquadramento habitual: é a montanha que nos observa.
A mostra reúne fotografias feitas com o ponto de vista aéreo que o fotógrafo vem aprimorando em sua pesquisa social e poética, um percurso reconhecível que já passou por Dubai, Roma, Paris e Milão. Aqui, Di Cera concentra sua atenção nos cenários alpinos: Alpe di Siusi, Monte Bianco, Val di Fassa, Val Badia, Roccaraso, Cortina d’Ampezzo e Madonna di Campiglio. A instalação e as imagens criam um único fio narrativo entre arte, fotografia e sustentabilidade.
Uma narrativa em três atos: pureza, presença e dissolução
O percurso expositivo é estruturado como um pequeno roteiro dramatúrgico. No primeiro ato, a montanha surge como paisagem intocada — um corpo puro, símbolo de eternidade e memória. O enquadramento zenital transforma pico e vales em sinais gráficos, uma semiótica do branco que remete à ideia de preservação.
No segundo ato, a figura humana aparece, minúscula, quase reverente. A escala revela um equilíbrio ainda possível: caminhar na montanha assume a forma de gesto consciente. A instalação propõe que o simples deslocar-se se torne um ato de consciência ecológica, uma coreografia entre pegada e responsabilidade.
No terceiro ato, o tom muda. A cena se complica: multidões, trilhas, intervenções. O derretimento dos glaciares deixa de ser apenas um fenômeno físico para assumir qualidade simbólica — é a dissolução da memória coletiva. A neve passa a registrar rastros e cicatrizes; a noite, citada como metáfora da condição atual, anuncia uma entropia crescente.
A peça central: um glaciar que se consome sob nossos passos
Uma das peças mais impactantes é a grande impressão do glaciar do Brenva que desce por uma parede até o chão da sala, convidando o visitante a caminhar sobre a imagem. Cada passo literalmente contribui para sua erosão: a obra é concebida para se consumir com o tempo, espelhando o processo físico que representa. É um gesto expositivo que reúne arte e ciência, um reframe da realidade onde o público participa da narrativa de perda.
Monte Bianco como metáfora total
O Monte Bianco assume na mostra o status de símbolo total — corpo da Terra, testemunha do aquecimento, espelho do universo. A escolha do ponto de vista zenital transforma montanha em testemunha-deus, oferecendo um olhar que, ao mesmo tempo que distancia, põe em evidência nossa responsabilidade histórica.
White Entropy não é só uma exposição fotográfica; é um dispositivo poético e político que nos pede um gesto: olhar com a precisão de quem lê um roteiro oculto da sociedade. Inserida no programa multidisciplinar da Olimpíada Cultural, a mostra conecta património, esporte e urgência climática, convocando o público a pensar o passo seguinte — não apenas na trilha, mas no mapa coletivo do futuro.
Ao deixar a sala, o visitante carrega consigo a imagem de uma montanha que vigia. Como todo espelho do nosso tempo, essa vigilância nos devolve uma pergunta inquietante: que pegada queremos deixar na neve da história?





















