Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha linhas de influência internas e redes de comando, o rosto público das grandes operações urbanas do Departamento de Imigração norte‑americano é o italo‑americano de origem calabresa Greg Bovino. Extrapolando a habitual cartografia institucional, sua atuação tornou‑se central na abordagem agressiva que marca a atual fase do ICE.
O Immigration and Customs Enforcement (ICE) é a agência de polícia federal vinculada ao Departamento de Segurança Interna (DHS), criada formalmente em 1º de março de 2003 como consequência direta dos atentados de 11 de setembro de 2001 e da reorganização do aparelho de segurança impulsionada pelo Congresso com o Homeland Security Act. A sua missão é clara: identificar, prender, deter e deportar cidadãos estrangeiros já presentes no território dos Estados Unidos.
É justamente essa natureza jurisdicional e operacional que explica por que, no segundo mandato, Donald Trump voltou a elevar o ICE ao papel de ferramenta central na cruzada contra a imigração irregular. O ICE não responde a prefeitos nem a governadores; não depende das polícias locais e não está limitado por fronteiras internas — uma alavanca de ação direta no tabuleiro político do país.
Veterano do Border Patrol, Greg Bovino emergiu nos últimos meses como o comandante operacional principal das grandes intervenções urbanas — de Los Angeles a Chicago, passando por Minneapolis. Sua ascensão é estratégica: vindo da polícia de fronteira e não dos quadros tradicionais do ICE, Bovino foi promovido para liderar missões internas de alta intensidade, sinalizando uma militarização pragmática do enfrentamento à imigração irregular.
A secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, chegou a descrevê‑lo como um “commander at large“, uma designação política que, embora não prevista normativamente, permitiu a Bovino operar fora da cadeia de comando convencional, reportando‑se diretamente ao topo político e participando da reestruturação do ICE ao lado de figuras como Corey Lewandowski. É um redesenho de fronteiras invisíveis dentro da burocracia — um movimento decisivo no tabuleiro das instituições.
Da sua doutrina operacional, associada a ele pela imprensa e por fontes internas, surge a expressão “turn and burn”: operações rápidas, de alto impacto visual, com dotação tática pesada e prisões executadas antes que as comunidades afetadas tenham tempo para articular resistência ou proteção jurídica. A comunicação pública de Bovino é direta e deliberadamente polarizadora; trata a migração irregular não como um problema administrativo, mas como uma ameaça a ser neutralizada em termos de segurança nacional.
O repertório simbólico também reforça sua imagem: o sobretudo verde, que evoca cortes militares da primeira metade do século XX, transformou Bovino em alvo constante da mídia e em emblema desta nova fase do ICE. Mais do que um homem, ele representa uma doutrina: acelerar ações, concentrar efeitos e minimizar intervenções locais que possam mitigar os resultados operacionais.
Como analista e diplomata da informação, observo que esta escolha institucional é sintomática de uma tectônica de poder que privilegia instrumentos federais com liberdade de manobra. Num tabuleiro onde a soberania doméstica se confunde com a segurança nacional, a presença de comandantes com perfil de campo e tática, como Greg Bovino, é um movimento calculado para impor ritmo e forma à política migratória — e para redefinir, por meio da força administrativa, os alicerces frágeis da diplomacia interna.






















