Em uma noite que misturou espetáculo e intimidade, Renato Zero parou o concerto e desceu à plateia para abraçar a apresentadora Enrica Bonaccorti, presença especial na segunda parada do tour L’Orazero no Palazzo dello Sport, em Roma. O gesto — simples e profundo — foi recebido com aplausos e carregou um significado que vai além da amizade pública entre os dois.
Acompanhada da filha, Verdiana, Bonaccorti estava sentada na plateia quando o cantor a alcançou e a envolveu num abraço apertado. A cena reatou um laço que remonta aos anos 70: uma história de amor que se transformou, ao longo das décadas, em uma amizade sólida e sincera. Foi um encontro que pareceu ser tanto pessoal quanto simbólico, como se fosse um pequeno epílogo performático de uma longa narrativa compartilhada.
No palco, pouco antes do gesto, Renato havia falado sobre o poder das mulheres e sobre a gravidade de situações em que a voz feminina é silenciada — uma referência implícita ao recente feminicídio de Federica Torzullo. Em seguida, interpretou a canção “Libera”, dedicando-a com palavras que provocaram reflexão e emoção: num momento de ironia cortante, citou que “Deus criou um saco vazio, é o homem, e depois fez Eva” — frase que, entre aplausos, chamou atenção para a condição feminina e suas contradições.
Ao descer à plateia, Renato explicou ao público: “Devo dar um abraço a uma mulher e vocês entendem por quê”. A referência foi percebida por todos: Enrica Bonaccorti enfrenta atualmente um tratamento após o diagnóstico de câncer de pâncreas, revelado em setembro passado. Aos 76 anos, ela recebeu o gesto visivelmente emocionada e respondeu com sinceridade: “Este homem me roubou o coração para sempre”, reafirmando o afeto antigo entre os dois.
Em termos simbólicos, a cena funcionou como um espelho do nosso tempo: um artista que interrompe seu próprio espetáculo para humanizar um momento, conectar passado e presente e dar visibilidade a uma pessoa pública em luta contra a doença. Não foi apenas uma pausa musical, foi um reframing da narrativa que acompanha figuras públicas — a lembrança de que, por trás da encenação, existem histórias e fragilidades que merecem atenção.
Para além da emoção, há aqui uma pequena lição de semiótica cultural: quando um ícone como Renato Zero usa o palco para amplificar uma voz ou um rosto, transforma espetáculo em ato público. A imagem do abraço, então, permanece como um quadro simbólico — um corte de cena que segue ressoando no roteiro oculto da sociedade, onde amizade, memória e presença pública se entrelaçam.
Chiara Lombardi para Espresso Italia — observando não só o acontecimento, mas o que ele revela sobre nossos desejos de empatia e visibilidade numa era em que o palco, muitas vezes, é o único lugar onde se pode tornar público o privado.






















