Em um movimento que revela fissuras na coalizão italiana, a eurodeputada Susanna Ceccardi (Lega/PfE) apresentou em Bruxelas questionamentos formais sobre um projeto financiado no âmbito do PNRR e do plano Italia 5G. A controvérsia centra-se num cantiere autorizado para a instalação de um repetidor ao lado de uma igreja, obra adjudicada pela Inwit S.p.A em nome do operador Vodafone S.p.A., cuja conclusão está prevista em linha com o cronograma que expira no final de agosto deste ano.
Ceccardi aponta que, a poucas centenas de metros do local indicado, já existe uma torre sobre-humana de 30 metros gerida pela Toscana Radio Comunicazioni S.r.l., devidamente cadastrada no sistema SINFI (Sistema Informativo Nazionale Federato delle Infrastrutture) e apta, segundo a parlamentar, a acomodar as antenas necessárias e a tubulação subterrânea para fibra óptica. Para a representante da Lega, a construção de uma nova infraestrutura seria não apenas redundante, mas contrária às normas do PNRR, que exigem a priorização e o reaproveitamento das infraestruturas existentes para evitar o desperdício de recursos públicos.
Esta contestação pública expõe dois vetores simultâneos: por um lado, a suspeita concreta de desperdício dos fundos do Recovery Fund; por outro, a fratura política dentro da maioria governista — composta por FdI, FI e Lega — onde um parceiro questiona decisões promovidas pelos aliados.
Do lado do executivo, a resposta veio por meio do vice-presidente executivo Raffaele Fitto, que recordou a competência dos Estados‑membros na seleção dos projetos financiados pelo Recovery Fund, e a sua responsabilidade primária em assegurar a conformidade com o direito nacional e europeu. Em termos práticos, a declaração de Fitto implica que, se houver irregularidade, foi a falha dos mecanismos de controlo nacionais que permitiu o desencontro — uma avaliação que não melhora a imagem do governo perante Bruxelas.
Como analista atento ao tabuleiro geopolítico, vejo neste episódio mais do que uma disputa administrativa: trata-se de um movimento estratégico que pode redesenhar, mesmo que discretamente, a percepção sobre a governança italiana na gestão dos fundos europeus. A sombra de ineficiências administrativas afeta os alicerces da diplomacia econômica e sinaliza riscos para a credibilidade do país na alocação de recursos estruturais vitais.
O caso exigirá verificação técnica rigorosa — auditorias sobre a adjudicação do projeto, conferência dos dados no SINFI e avaliação do cumprimento das normas do PNRR. Será também um teste de coesão para a maioria italiana: num tabuleiro onde cada movimento altera o equilíbrio, a resposta do governo dirá se a coalizão consegue recuperar a unidade ou se a tectônica de poder interna continuará a provocar abalos na sua capacidade de governar e controlar recursos europeus.
Esta controvérsia acompanhará os próximos passos do Italia 5G e servirá como um indicador da capacidade italiana — e da própria União Europeia — em prevenir desperdícios e garantir que os fundos da recuperação cumpram seu propósito estratégico.






















