União Europeia e Índia deram um passo calculado no que pode ser descrito como um movimento decisivo no tabuleiro das relações internacionais: a assinatura iminente de um acordo de livre comércio entre os dois blocos, anunciada durante a visita da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, a Nova Deli.
Em meio a uma conjuntura internacional dominada por pressões protecionistas — sobretudo a partir de medidas comerciais dos Estados Unidos — a iniciativa europeia busca diversificar **eixos de influência** e consolidar parceiros em uma arquitetura econômica menos dependente de um único ator. “Stiamo dimostrando a un mondo frammentato che un’altra via è possibile”, disse a presidente europeia, sintetizando a ambição geopolítica do acordo.
O acordo, que sucede o longo e controverso processo com o Mercosul, prevê a abertura a um mercado de aproximadamente 1,5 bilhão de habitantes e a redução de tarifas sobre cerca de 90% dos bens comercializados entre as partes. Setores estratégicos estão no centro das negociações: o setor automotive — no qual as montadoras europeias detêm participação reduzida no mercado indiano — ao lado da indústria química, de plásticos e do comércio vitivinícola, que poderão se beneficiar de uma janela tarifária mais favorável.
Além do trade deal, fontes indicam que serão rubricados documentos de cooperação ampliada em áreas de segurança, mobilidade e uma agenda estratégica global para o período 2026-2030, sinalizando que a parceria transcende a mera liberalização comercial e busca constituir alicerces de uma aliança pragmática.
No âmbito tarifário, circulam números significativos: para automóveis, discute-se uma redução de tributos que hoje chegam a níveis muito elevados — uma diminuição projetada que pode alterar substancialmente a competitividade das marcas europeias. Fora da mesa de corte tarifário permanece o setor agroalimentar, tema sensível nas negociações internacionais; a Índia pediu isenções em relação a normas climáticas europeias, como a taxa sobre o carbono (CBAM), e não pretende reconhecer de forma automática as certificações alimentares europeias.
O comércio bilateral já é robusto: no ano comercial 2024-25, o intercâmbio de bens alcançou 136 bilhões de euros (exportações da Índia para a UE: 76 bilhões; importações indianas da UE: 60 bilhões). Estudos da própria União Europeia estimam que, com o novo acordo, o fluxo comercial poderia expandir entre 30% e 40%. No setor automotivo, as projeções são especialmente relevantes: veículos europeus hoje possuem participação marginal — cerca de 5% do mercado indiano — espaço que o acordo pretende ampliar.
Politicamente, a assinatura ocorre em um momento simbólico: a presidente da Comissão participou das celebrações do Dia da República na Índia, e o trabalho diplomático passou das formalidades cerimoniais para a assinatura dos documentos. Este duplo gesto — celebração e tratado — reflete a intenção de transformar cortesia protocolar em pacto estratégico.
Como analista, enxergo nesta iniciativa mais que um contrato comercial: é um redesenho de fronteiras invisíveis na economia global, uma tectônica de poder que busca equilibrar influências e criar alternativas de parceria. A UE move uma peça no tabuleiro com precisão: diversificar, ancorar presença em regiões emergentes e mitigar riscos oriundos de políticas protecionistas externas.
Resta ver como serão geridas as interdependências sensíveis — especialmente matérias-primas, padrões climáticos e normas regulatórias — e de que forma as exceções negociadas, como a não inclusão plena do setor agroalimentar e as solicitações de isenção ao CBAM, afetarão o equilíbrio do acordo a médio prazo. O resultado imediato, porém, é claro: um mapa de influência redesenhado, onde a cooperação estratégica sobrepõe-se a singulares linhas de falha.
Marco Severini — Espresso Italia






















