Por Marco Severini — Em uma intervenção de alto teor diplomático perante a Comissão de Assuntos Externos e a Subcomissão de Defesa do Parlamento Europeu, o secretário‑geral da NATO, Mark Rutte, desenhou um cenário de contenção e realismo. Ao mesmo tempo em que atenuou o conflito interno da Aliança provocado pelas declarações inflamadas do presidente Trump sobre a soberania da Gronelândia, Rutte reconheceu que a chamada de atenção de Washington para a segurança do Ártico tem validade estratégica.
Com a calma de quem atua sobre um tabuleiro complexo, o ex‑primeiro‑ministro holandês afirmou que “Trump está a fazer muitas coisas positivas” e que o presidente norte‑americano “está totalmente empenhado na NATO”. Foram frases dirigidas a eurodeputados inquietos — e também um gesto de mediação destinado a manter coesa a base transatlântica num momento em que os alicerces da diplomacia parecem deslocar‑se por pressões externas e internas.
Rutte não escondeu o amargor: citou as ameaças comerciais, as investidas verbais e a circulação de mensagens de texto trocadas poucas horas antes do seu discurso em Davos. Ainda assim, optou por uma postura pragmática: “Se alguém pensa que a UE pode defender‑se sem os Estados Unidos, que continue a sonhar”, advertiu. Trata‑se de um banho de realismo geopolítico — uma leitura clara da tectônica de poder que sustenta a segurança europeia.
O secretário‑geral justificou essa realpolitik com números e consequências concretas. Foi, segundo ele, o efeito da pressão norte‑americana que empurrou países como Espanha, Itália, Bélgica e Canadá do patamar de 1,5% para 2% do PIB em gastos militares. “Sem as ameaças de descompromisso dos Estados Unidos, seria impossível que a Itália gastasse 10 bilhões a mais”, afirmou Rutte, lembrando o objetivo alargado de que os 32 membros da NATO atinjam 5% do PIB em defesa até 2035.
Sobre o ponto central do episódio — as ambições americanas no Ártico — Rutte descreveu um acordo de princípio com a Casa Branca que, contudo, mantém limites nítidos. Foram acordadas “duas linhas de trabalho”: a primeira incumbe diretamente à NATO e prevê que a Aliança assuma colectivamente maiores responsabilidades pela defesa da região; a segunda deverá ser tratada bilateralmente entre Estados Unidos, Dinamarca e Gronelândia, com o propósito de limitar o acesso militar e económico de China e Rússia ao Ártico.
Rutte sublinhou a falta de mandato negocial sobre Copenhague ou Nuuk: “Não tenho autoridade para negociar em nome da Dinamarca ou da Gronelândia”, declarou, deixando claros os contornos institucionais do seu papel. A solução, portanto, é menos uma capitulação do que uma redistribuição estratégica de responsabilidades — uma jogada de diplomacia que busca preservar a unidade do bloco sem rasgar soberanias nacionais.
Por fim, e não menos importante, o secretário‑geral vinculou a manutenção da coesão transatlântica à situação da Ucrânia. “Neste momento, a UE não pode fornecer à Ucrânia o que precisa para se defender hoje e dissuadir futuros ataques de Moscou”, reconheceu. A conclusão é explícita: sem o fluxo de material militar proveniente dos Estados Unidos, Kiev perderia capacidade de resistência. Trata‑se de um lembrete severo acerca das interdependências estratégicas que moldam a segurança europeia.
Como analista que acompanha a geopolítica com atenção de cartógrafo, observo que Rutte atuou como mediador numa posição de fragilidade institucional — o secretário‑geral, ao mesmo tempo em que protege a Aliança, evita redesenhar fronteiras que não lhe pertencem. A sua atuação assemelha‑se a um movimento de xadrez destinado a preservar um rei vulnerável: não pretende ganhar agora, mas conservar a mesa de jogo intacta para lances futuros.
Em suma, a intervenção serviu para acalmar os ânimos, marcar prioridades e redefinir responsabilidades no Ártico — sem prometer soluções unilaterais. Nesta fase, a estabilidade do tabuleiro atlântico depende mais da contenção e da coordenação do que de demonstrações de força. E é esse, em essência, o conteúdo da mensagem que Rutte trouxe ao Parlamento Europeu.






















