Le cose non dette (2026), o décimo sexto longa de Gabriele Muccino, chega às telas em 29 de janeiro de 2026 trazendo ao centro do quadro as pequenas grandes traições que corroem relações burguesas. Inspirado no romance Siracusa, de Delia Ephron, o filme constrói um salão de espelhos emocionais onde as máscaras caem com o calor de Tanger: um cenário que funciona como metáfora, quase um cenário de transformação, do nosso próprio roteiro íntimo.
Com um elenco coral formado por Stefano Accorsi, Miriam Leone, Carolina Crescentini e Claudio Santamaria, Muccino encena uma lente ansiosa sobre a crise conjugal e os fantasmas não ditos. Há ecos de filmes como Carnage de Roman Polanski e o mosaico social de Perfetti Sconosciuti, mas aqui o diretor desenha sobretudo o mapa emocional de personagens que perdem a bússola existencial.
O ponto de partida é simples e dramático: Carlo e Elisa, casal em estado de suspensão após a frustração de não terem conseguido ser pais, viajam a Tanger em busca de uma pausa que possa servir de catálise. Junto a eles, a outra dupla — Paolo, dono de restaurante e figura paterna ausente, e Anna, ansiosa e dominadora — traz consigo a filha de treze anos, Vittoria, cuja sensibilidade pré-adolescente funciona como espelho e como alerta para os adultos em derrocada.
A reviravolta ocorre com a chegada inesperada de Blu, aluna e muito jovem amante de Carlo. O cerne narrativo é o retrato de um narcisismo inseguro que se mascara de desejo e termina por devastar a convivência. Muccino reconstrói aqui seus topos conhecidos: a régia tensa, as discussões explosivas, o infantilismo masculino e a inquietação adolescente — elementos que, combinados, criam um jogo de máscaras onde todo espectador pode se reconhecer e, talvez, se incomodar.
No elenco, Accorsi encarna um homem que se quer alfa — obcecado por corpo e imagem — e frustrado nas ambições. Santamaria oferece o contraponto de um homem que parece sempre reduzido a uma posição subalterna dentro da dinâmica doméstica. São perfis familiares, triturados pela expectativa social, que se movem entre culpa, desejo e rancor.
O filme não promete redenção fácil. O desfecho é trágico: os personagens retornam aos seus lares como bonecos cujas linhas foram cortadas, prontos a varrer sob o tapete as próprias “macerie”. É um final que reitera a ideia do cinema como espelho do nosso tempo — não apenas um entretenimento, mas um diagnóstico sutil das falhas que mantemos ocultas.
Como crítica cultural, Le cose non dette merece ser visto por quem busca cinema que interrogue o presente. Não é vaidade nem mero melodrama: é a semiótica do viral das relações íntimas traduzida pelo olhar de um diretor que, mesmo repetindo seus temas, continua capaz de provocar reflexão. Recomendado para plateias que aceitam desconforto e que preferem sair da sala com perguntas, não respostas prontas.
Assinado, Chiara Lombardi — Espresso Italia






















