Por Marco Severini — Em movimento de alta carga simbólica e estratégica, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Itália, Antonio Tajani, anunciou que, na reunião de ministros europeus em Bruxelas prevista para esta quinta-feira, proporá a inclusão dos Pasdaran — também conhecidos como Guardiões da Revolução iranianos — na lista de organizações terroristas da União Europeia, além da aplicação de sanções individuais contra os responsáveis pelos atos de repressão.
Num post na plataforma X, Tajani sublinhou que ‘as perdas sofridas pela população civil durante as manifestações impõem uma resposta clara’. Esta formulação traduz uma decisão construída sobre dois pilares: a exigência moral diante da violenta contenção dos protestos e a busca de um enquadramento jurídico e político comum entre os parceiros europeus.
O anúncio recebeu apoio explícito do ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, Gideon Sa’ar, que, também via X, classificou a iniciativa como necessária e apelou à União Europeia para adoptar aquela ‘decisão moral’ de designar as Guardas Revolucionárias como organização terrorista.
No Irã, entretanto, o aparelho repressivo mantém postura intransigente. O chefe do poder judiciário, Gholamhossein Mohseni Ejei, citado pela agência estatal Mizan, confirmou a linha dura: processos sumaríssimos e punições ‘sem a mínima clemência’ para os manifestantes apanhados nas ações de contenção. Trata-se de um movimento que evidencia a intenção do regime de consolidar controle interno, mesmo à custa de convulsão social e isolamento externo.
Os números de vítimas, contudo, permanecem controversos e contestados. A ONG Human Rights Activists News Agency (HRANA), com sede nos EUA, contabiliza 5.848 mortos desde o início das manifestações em 28 de dezembro. Iran International, organização com sede no exterior, reporta um número muito mais elevado — alegando até 36.500 mortes entre 8 e 9 de janeiro — enquanto a ONG Iran Human Rights, baseada na Noruega, documentou pelo menos 3.428 execuções por forças de segurança e advertiu que o balanço final pode chegar a 25.000 vítimas. Estas discrepâncias expõem a dificuldade de verificação independente em zonas de intenso conflito e mostram o peso da narrativa na geopolítica da crise.
Do ponto de vista estratégico, a proposta de Tajani representa um movimento calculado no tabuleiro europeu: procura traduzir a comoção humanitária em ferramentas coercitivas que limitem a capacidade internacional de projeção dos Pasdaran e enviem um sinal político ao regime de Teerã. Ao mesmo tempo, abre um espaço de tensão entre a necessidade de unidade ocidental e os riscos de escalada regional, sobretudo se Teerã reagir com retaliações diplomáticas ou militares indiretas.
Em termos de arquitetura de poder, estamos perante um redesenho de fronteiras invisíveis — sancionar os Guardiões da Revolução equivale a restringir uma das peças mais móveis no xadrez da influência iraniana na região. Para a União Europeia, a decisão exigirá coordenação jurídica rigorosa e um cálculo estratégico sobre os efeitos colaterais: desde impactos sobre canais de negociação nuclear até repercussões económicas e humanitárias.
Num plano mais amplo, a iniciativa italiana conjuga a pressão por responsabilidade com a preocupação pela estabilidade: responsabilizar atores estatais e paramilitares por abusos é uma medida legítima, mas deve ser manejada como um movimento de mestre no tabuleiro, antecipando respostas e minimizando riscos de desordem regional.
Enquanto os ministros se reúnem em Bruxelas, a Europa terá de pesar a força da condenação moral contra a prudência estratégica. A decisão que surgir será, em igual medida, uma mensagem ética e uma jogada de longa duração na tectônica de poder do Médio Oriente.






















