Por Marco Severini, Espresso Italia — Em um pronunciamento cuidadoso e com a gravidade de quem observa movimentos estratégicos em um tabuleiro de xadrez internacional, o Kremlin classificou como alarmante a hipótese, ventilada na imprensa norte-americana, de um embargo total dos EUA contra Cuba com o objetivo de forçar uma mudança de regime.
O porta-voz do presidente russo, Dmitri Peskov, disse aos meios locais que Moscou “leu muitas notícias a respeito” e considerou o cenário “alarmante“. Ao mesmo tempo, ressaltou que os “nossos companheiros cubanos estão plenamente determinados a defender os seus interesses e a sua independência”. A afirmação do Kremlin sublinha não apenas uma posição política, mas um cálculo geoestratégico sobre os alicerces da diplomacia na região.
Reportagens do site Politico indicam que a administração do presidente Donald Trump estaria avaliando medidas duras, incluindo a imposição de um bloqueio total às importações de petróleo para a ilha. Na semana passada, o próprio Trump publicou uma mensagem de advertência dirigida a Havana: “NO MORE OIL OR MONEY TO CUBA – ZERO!” — uma linguagem de máxima pressão econômica que, se materializada, configura um movimento decisivo no tabuleiro hemisférico.
Fontes citadas pelo veículo apontam que a medida é defendida por críticos do governo cubano dentro da administração e apoiada pelo Secretário de Estado Marco Rubio. Ainda não há decisão final; o pacote de opções apresentado ao presidente incluiria, segundo relatos, táticas destinadas a acelerar a queda do governo comunista cubano.
No plano das relações bilaterais, Moscou já reforçou sua presença na ilha: o ministro do Interior russo, Vladimir Kolokoltsev, encontrou-se na semana passada com o histórico líder cubano Raúl Castro. Em março de 2025, Rússia e Cuba assinaram um acordo de cooperação militar, marco que demonstra um redesenho de fronteiras invisíveis na influência hemisférica. O presidente Vladimir Putin declarou ao Kremlin solidariedade com a “determinação de Havana para defender sua soberania e independência”, mesmo sem criticar diretamente a postura de Washington sobre a captura do líder venezuelano Nicolás Maduro, aliado de longa data de Havana.
Como analista, observo que a proposição de um embargo energético total não é apenas uma sanção econômica: é uma tentativa de recalibrar equilíbrio regional, testando a resiliência dos laços entre Cuba e seus parceiros — em especial a Rússia e os países da América Latina alinhados com Havana. Trata-se de um movimento que poderia provocar uma tectônica de poder, com repercussões militares, econômicas e políticas que extrapolam a ilha.
Na linguagem da diplomacia clássica, estamos diante de uma jogada de alta tensão: Washington avalia restringir vitalmente os recursos energéticos; Moscou reforça compromissos estratégicos; Havana afirma sua determinação de preservar soberania. O resultado dependerá não só das cartas que cada ator decide jogar, mas também da capacidade dos demais — parceiros e rivais — de responder em tempo e escala adequados.
Em suma, a possibilidade de um embargo total dos EUA a Cuba é percebida pelo Kremlin como uma escalada perigosa. A situação exige monitoramento atento: cada movimento no tabuleiro pode redesenhar alianças e acentuar linhas de fratura na estabilidade regional.






















