Por Riccardo Neri – A HONOR tornou-se um caso emblemático de reconfiguração estratégica no mercado global de smartphones. De acordo com a análise da Omdia, as remessas internacionais da marca cresceram 55% nos primeiros três trimestres de 2025 em relação ao ano anterior — o ritmo mais rápido entre os dez maiores fabricantes mundiais. Esse avanço não é um fenômeno aleatório, mas o resultado de uma arquitetura comercial deliberada que transforma a expansão global em um dos alicerces digitais da empresa.
Em termos de participação geográfica, a evolução é notável: se em 2021 as vendas fora da China respondiam por menos de 10% do total, em meados de 2025 essa fatia se aproximou de 50%, consolidando a internacionalização como peça central da estratégia corporativa. Por trás desse movimento há uma opção clara de posicionamento: a aposta na faixa de preço intermédia-alta. O intervalo entre 300-499 dólares representou cerca de 23% das remessas internacionais em 2025, permitindo à HONOR distanciar-se da guerra de margens do segmento entry-level.
Estrutura da estratégia comercial
A estratégia adotada organiza-se em camadas — como uma infraestrutura urbana pensada para escalabilidade e resiliência:
- Canais: reforço de lojas próprias e parcerias com operadoras-chave, criando pontos físicos que funcionam como nós do sistema, onde o consumidor pode experimentar as funcionalidades de AI.
- Produto: desenvolvimento orientado por necessidades locais, com ênfase em autonomia, robustez e confiabilidade — atributos fundamentais para ganhar confiança em mercados maduros.
- Marketing e AI: promoção das capacidades de Inteligência Artificial não apenas em campanhas, mas por meio de demonstrações in-store que aceleram a adoção; no ecossistema Google, diferenciação passa por experiências de AI localizadas.
Diversificação regional: um mapa de prioridades
A HONOR desenha um portfólio geográfico equilibrado, com diferentes motores de crescimento em cada região. Na Europa, a marca busca consolidar o posicionamento premium em mercados-chave da Europa Ocidental e ampliar presença na Europa Central e Oriental. A América Latina é a alavanca de volumes, apoiada por sólidas parcerias com operadoras e presença robusta no México e na América Central — com o Mundial FIFA 2026 atuando como catalisador adicional de demanda.
No Oriente Médio e África, especialmente nos países do GCC, a demanda por dispositivos de faixa médio-alta cria novas oportunidades. Já o Suleste Asiático aparece como a próxima fronteira, com investimentos em capacidade produtiva na Indonésia e fortalecimento de serviços pós-venda na Malásia.
Riscos e desafios da cadeia
Do ponto de vista da infraestrutura de produção, há fragilidades: a alta nos preços de memórias NAND e DRAM pode pressionar custos e limitar o poder de negociação da HONOR frente a concorrentes com ecossistemas industriais mais consolidados. Além disso, embora a AI seja um diferencial, sua sustentabilidade comercial depende de modelos de monetização que vão além do hardware — sobretudo em mercados emergentes sensíveis a preço, que requerem maior localização de oferta e serviços.
Em resumo, a trajetória da HONOR em 2025 representa mais do que números expressivos: é um redesenho da sua arquitetura de mercado, com camadas de inteligência implantadas para transformar pontos de contato em vantagens competitivas. Se a empresa mantiver a coerência entre produto, canais e algoritmos, estará construindo um sistema nervoso capaz de sustentar crescimento e resiliência frente às variabilidades da cadeia global.






















