Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, de forma dramática, o tabuleiro político interno e regional, o regime de Teerã anunciou que adotará o pugno di ferro contra os protestos que abalam a República Islâmica. O chefe do poder judiciário, Gholamhossein Mohseni Ejei, declarou, em comunicado citado pela agência Mizan, que os processos contra os detidos serão conduzidos com o “máximo rigor” e que não haverá “clemência” para os acusados de instigar ou praticar atos violentos.
Segundo Mohseni Ejei, a justiça será célere: os julgamentos ocorrerão “no mais breve tempo possível” e as punições serão aplicadas sem atenuantes a quem for reconhecido culpado de ter empunhado armas, cometido assassinatos, ateado incêndios ou promovido destruição e massacres. A linguagem jurídica, nesta retórica, serve a um objetivo político claro: selar a legitimidade punitiva do regime e restaurar, por vias coercitivas, a ordem pública.
Enquanto isso, no plano externo, Teerã reforçou um aviso explícito a EUA e Israel: qualquer ataque será respondido com dureza. Em paralelo, o parlamentar Pezeshkian teria endereçado a Donald Trump um pedido para adiar possíveis raids, numa interlocução que revela o duplo movimento do regime — repressão interna e dissuasão externa — como manobras coordenadas num tabuleiro estratégico.
Organizações de defesa dos direitos humanos estimam que milhares, possivelmente dezenas de milhares, foram presos durante as ondas de contestação, e que os confrontos do início de janeiro resultaram em milhares de mortos. O New York Times noticiou que a Guia Suprema, Ali Khamenei, teria ordenado, em 9 de janeiro, às forças de segurança que “esmagassem” os grandes protestos “por todos os meios necessários”, inclusive com ordens para “atirar para matar e não demonstrar piedade”.
Relatórios da oposição chegam a contabilizar mais de 30 mil vítimas apenas nos dias 8 e 9 de janeiro, cifra que, se verificada, caracterizaria uma repressão de escala massiva. A televisão estatal exibiu imagens do chefe do poder judiciário interrogando pessoalmente manifestantes detidos, alimentando o receio sobre a ocorrência de confissões forçadas e processos sumários.
Uma voz dissidente dentro das forças, relatada em entrevista à rádio israelense 103FM, afirmou que elementos oriundos do Afeganistão e do Paquistão têm sido usados para atuar na repressão porque “é difícil para um iraniano matar outro iraniano”. A declaração expõe fissuras e escolhas pragmáticas na composição dos instrumentos de coerção do regime.
Do ponto de vista geopolítico, a cena atual é um movimento de grande repercussão: internamente, a máquina repressiva busca reconsolidar os alicerces da autoridade; externamente, a retórica de ameaça funciona como dissuasão preventiva contra intervenções externas. É um duplo jogo de poder, em que cada jogada no tabuleiro doméstico altera as dinâmicas regionais e testa a tolerância dos atores externos.
O episódio devolve ao centro do debate internacional questões essenciais sobre legitimidade, proporcionalidade e os limites da resposta estatal. Em um momento em que a tectônica de poder na região se mostra particularmente sensível, as decisões de Teerã — judiciais e militares — terão efeitos duradouros na estabilidade interna e nas fronteiras invisíveis da influência regional.
Resta observar como Washington e Jerusalém responderão ao ultimato iraniano e se a pressão internacional conseguirá reduzir a intensidade da repressão sem precipitar um enfrentamento direto. No tabuleiro da diplomacia, cada movimento torna-se decisivo.






















