Por Chiara Lombardi — Em uma provocação teatral que funciona como espelho do nosso tempo, Alessio Boni retorna ao palco para reviver a força poética de Alda Merini em “Canto degli esclusi”, peça que estreia no Teatro Greco de 27 de janeiro a 1º de fevereiro. Ao lado de Marcello Prayer e com a participação visual do artista Giuliano Del Sorbo, Boni transforma o púlpito do teatro em uma tela onde dor e luz se entrelaçam.
A origem do espetáculo é, por si só, parte do roteiro oculto da sua própria história: nasceu em 2012, fruto de uma resposta direta à emergência humana provocada pelo terremoto em Mirandola, na província de Modena. A devastação deslocou famílias, montou tendas e, ali, entre as lonas das acomodações provisórias, surgiu a ideia de levar poesia como acolhimento. O que começou como um socorro cultural improvisado acabou prosseguindo e transformando-se em peça itinerante — algo que, confessam os atores, ninguém imaginava que duraria tanto.
Para Boni, a escolha de Merini não é um gesto nostálgico, mas um intento de encenar “uma vida incandescente, acuminada”, despojada de ornamentos, que atinge a audiência com a ferocidade da urgência. Merini, frequentemente rotulada de louca, foi na verdade uma mulher que viveu longos períodos de depressão e passou cerca de vinte anos entrando e saindo de instituições. Não reconhecida como capaz de ser mãe de suas quatro filhas, transformou sofrimento em vocação e entregou ao mundo versos que ardem com sinceridade. As 46 poesias selecionadas para o espetáculo — um símbolo cruelmente coincidindo com os 46 eletrochoques que a poetisa suportou — são apresentadas como uma travessia íntima e coletiva.
Cada encenação é única: Boni e Prayer não se limitam a declamar; eles jezziam — evocam, contam, desmontam e remontam a palavra poética. Enquanto isso, Giuliano Del Sorbo pesquisa a presença física de Merini em tempo real, pintando um retrato que acompanha a declamação. Esse gesto visual funciona como um contraponto e como um manto — ou, como descrevem, um “manto incandescente” — que envolve a figura da poetisa, tornando palpável o seu sofrimento e a sua capacidade de devolver poesia ao mundo.
O espetáculo também incorpora elementos sonoros: o público não apenas ouve as encenações dos atores, mas escuta a própria voz de Merini em dez faixas de áudio, um recurso que amplia a sensação de imersão e cria uma camada de autenticidade — o eco de uma voz que atravessa o tempo e volta para confrontar nossas certezas.
Mais do que um tributo biográfico, “Canto degli esclusi” funciona como um reframe da realidade: a peça propõe que olhemos para aqueles que foram excluídos e que, paradoxalmente, nos devolveram sentido. É teatro como diagnóstico cultural, uma lente que revela a semiótica do trauma e da redenção. Em cena, Merini reaparece não como mito intocável, mas como presença vulnerável e visionária, capaz de iluminar dúvidas, remorsos e esperanças. Uma experiência que, como um filme bem dirigido, nos deixa pensando no roteiro oculto da sociedade.
Essa montagem, concebida no calor da emergência e amadurecida ao longo dos anos, reafirma que o teatro pode ser abrigo e espelho — capaz de acolher a dor coletiva e transformá-la em linguagem que toca a alma.





















