Se alguém atravessasse a Planície Padana rumo ao leste, sem pausa, cruzando mares, montanhas, cidades e desertos, acabaria na Mongólia. Foi exatamente esse horizonte extremo que, há trinta anos, levou Giovanni Lindo Ferretti e Massimo Zamboni a embarcar na lendária Transmongolica: cinco dias e cinco noites de viagem ferroviária de Moscou a Ulan Bator, uma rota que tem tanto do épico quanto dos roteiros do nosso imaginário coletivo.
Desse périplo nasceu parte do alicerce criativo para o disco monumental Tabula rasa elettrificata, e foi ali também que se acenderam as imagens e as memórias que décadas depois retornam ao presente com força renovada. Agora, os corações do Consorzio Suonatori Indipendenti — os C.S.I. — voltam a se reunir: anúncio de uma reunião da banda, um tour de sete datas no próximo verão (duas já esgotadas) e um filme assinado por Davide Ferrario, produzido pela Damocle, a casa de produção de Valerio Mastandrea. E, quem sabe, nova música.
Para Ferrario, diretor que sempre transitou entre documentário e ficção com olhar atento ao detalhe, trata-se de um retorno a um set que, em certo sentido, ele nunca chegou a ocupar. Em 1996, quando Ferretti e Zamboni decidiram partir para a Mongólia, convidaram Ferrario para acompanhar a empreitada. A relação já vinha dos anos 80: Ferretti havia participado de pequenas aparições nos primeiros filmes do diretor. Porém, naquele momento, Ferrario recebeu financiamento para rodar Tutti giù per terra e teve de abrir mão da viagem.
Não foi um abandono da ideia — apenas uma mudança de cena. Ferrario enviou um operador ao lado da dupla para captar imagens in loco e, de volta à Planície Padana, completou a obra recolhendo lugares e personagens que ressonavam com aquela distância geográfica e simbólica. Assim nasceu Sul 45° Parallelo, um documentário que equilibra um realismo minucioso com um impressionismo onírico: o sol nascendo no deserto, cavaleiros mongóis domando seus animais e chaminés industriais que perfuram a paisagem padana, tudo costurado pelos relatos do escritor Gianni Celati e pelas canções dos C.S.I., que funcionam como uma voz narrativa.
O que se anuncia agora é, portanto, um novo capítulo dessa narrativa: Ferrario volta a reencontrar os protagonistas daquela viagem fundacional para transformar memórias e imagens em filme novamente — desta vez com a banda reunida e com a produção da Damocle. A notícia tem o sabor de reencontro entre arte e itinerário, entre música e cinema, uma espécie de espelho do nosso tempo onde o passado se refrata e volta a iluminar o presente.
Mais do que o anúncio de shows e de uma obra audiovisual, a novidade é a confirmação de que certos roteiros culturais insistem em retornar, como se a arte fosse capaz de encurtar distâncias temporais e geográficas. A reunião dos C.S.I. não é apenas um evento nostálgico: é um reframe da memória coletiva, uma oportunidade para revisitar a semiótica de uma época e perceber como essas imagens continuam a reverberar. Em um cenário de transformação, a colaboração entre Ferrario, Mastandrea e a banda promete não só documentação, mas reinterpretação — uma mise-en-scène do eco cultural que aqueles anos ainda carregam.
Para os fãs e os curiosos do panorama musical e cinematográfico italiano, resta aguardar mais detalhes sobre as datas e sobre o conteúdo do filme. Enquanto isso, a história se desenha como um roteiro onde trilha sonora e paisagem se entrelaçam, convidando o espectador a ler o mundo como se ele mesmo fosse um set em que lembrança e invenção se encontram.






















