Por Chiara Lombardi — Da sala do Capitol, numa quarta-feira à tarde, o cineasta Paolo Franchi observou um fenômeno cultural que, nos últimos dias, ocupa não só as bilheterias como também o debate público: o sucesso estratosférico de Buen camino de Checco Zalone, que ultrapassou os 70 milhões de euros e se tornou o maior feito de bilheteira recente na Itália.
Franchi — nascido em Bergamo em 1969, um dos poucos diretores italianos contemporâneos com respiração internacional — aproximou-se do filme não como fã incondicional, mas como um espectador antropológico. “Sem o vosso convite, duvido que eu teria ido”, admite. “Hoje frequento a sala de cinema raramente. Isso me torna um pouco desligado do cinema atual.”
Daquele lugar discreto na plateia, Franchi sentiu que o que estava diante dele não era apenas uma comédia: era um espelho social de um tempo tenso. “O sucesso de Buen camino? Creio que depende da exigência da gente de evadir — fugir do clima de guerra e da miséria que nos perpassa”, afirma o diretor. A frase não é apenas observação; é um diagnóstico curto e amargo do cenário cultural contemporâneo, um refrão que ecoa tanto em discursos institucionais quanto nas salas de exibição.
Franchi lembra um episódio de sua trajetória para situar sua perspectiva: no Festival de Roma de 2012, seu filme E la chiamano estate — um romance erótico com Isabella Ferrari — foi vaiado e, paradoxalmente, premiado. Essa trajetória o tornou sensível às oscilações do gosto e da crítica. E é com esse olhar que ele descreve o que viu em Buen camino.
“Minha curiosidade foi, sobretudo, antropológica. Assisti a algo que me é estranho, tanto como espectador quanto como artista. Este filme é para quem sente a necessidade de rir de maneira, por vezes, infantil e politicamente incorreta — como forma de fuga do cotidiano”, comenta. Observado o silêncio parcial da sala — poucas risadas durante a sessão — Franchi lembra da natureza contagiosa do riso: “Se um espectador ri, os outros o seguem”. Ele não riu primeiro; tampouco se alinhou aos aplausos coletivos.
Sem qualquer gesto de snobismo, Franchi explica sua preferência estética: diverte-se com o primeiro Almodóvar e com as comédias de Woody Allen dos anos 1990. Se o termômetro do humor é Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos ou Bala na Broadway, a distância estética para o cinema de Zalone é significativa. Ainda assim, há admiração: “Os filmes de Checco não demonstram pretensão. São o que querem ser. Provavelmente é essa genuinidade que captura o público. Em comparação, acho que ele é mais espontâneo do que a Paola Cortellesi enquanto diretora.”
Franchi não poupou uma avaliação direta sobre o recente filme de estreia de Cortellesi, C’è ancora domani, que não o agradou. A crítica dele é sintética, quase cirúrgica: distingue entre as camadas do riso e os códigos de identificação do público.
O comentário de Franchi abre um painel mais amplo: o cinema popular, especialmente quando encarnado numa figura como a de Zalone, funciona não apenas como entretenimento, mas como um verdadeiro mecanismo de evasão coletiva — um pequeno refúgio em salas escuras onde se busca, através do riso, um reframe da realidade. Nesse sentido, o fenômeno Buen camino não é só um êxito de bilheteria, é um sintoma cultural. E como todo sintoma, convoca perguntas: o que exatamente o público deseja deixar para trás quando ri? Que roteiro oculto da sociedade está sendo reescrito entre uma gargalhada e outra?
Para Franchi, a resposta é simples e inquietante: num momento histórico difícil, rir pode valer como salto para fora do presente — uma pequena travessia rumo a um terreno menos opressivo. E enquanto alguns críticos buscarem camadas e ambições, o público parece preferir o ato puro e direto de se divertir. No espelho do nosso tempo, essa escolha diz muito sobre como as imagens e os roteiros públicos se entrelaçam com as urgências do cotidiano.
Chiara Lombardi é analista cultural da Espresso Italia. Observadora perspicaz do entrelaçamento entre entretenimento, memória e contexto histórico.






















