Por Alessandro Vittorio Romano — 25 de janeiro de 2026
Depois de quase oito décadas de laços institucionais, os Estados Unidos oficializaram sua saída da OMS (Organização Mundial da Saúde). A decisão, anunciada na quinta‑feira, 22 de janeiro de 2026, encerra um vínculo iniciado em 1948, quando Washington foi um dos países fundadores da agência da ONU.
A medida já vinha sendo preparada: há um ano o governo norte‑americano notificou oficialmente sua intenção de se retirar, acionando o aviso prévio de 12 meses previsto por resoluções internacionais. Na prática, o Departamento de Saúde e o Departamento de Estado dos Estados Unidos selaram uma mudança histórica que, nas previsões de analistas, pesará profundamente no orçamento e no papel da Organização.
O comunicado oficial da Casa Branca apontou críticas antigas, reiteradas durante a presidência de Donald Trump: a agência teria “agido contra os interesses americanos”, adotando uma agenda excessivamente politizada e burocrática. Entre as acusações, destaca‑se a responsabilização pela má gestão da pandemia de Covid‑19 — originada, segundo a nota, em Wuhan — e a falta de independência diante da influência de alguns Estados‑membros.
Além do rompimento institucional, os Estados Unidos informaram que não têm intenção de pagar cerca de US$278 milhões em contribuições obrigatórias pendentes. É uma cifra que agrava o impacto financeiro sobre a Organização Mundial da Saúde, já fragilizada por tensões políticas e por um modelo de financiamento dependente de poucos grandes doadores.
Enquanto observo essa virada geopolítica, penso na paisagem que muda após uma seca longa: algumas raízes secam, outras buscam novas fontes. Para a saúde global, a saída dos EUA é como a interrupção de uma estação de chuvas — haverá reorganização, talvez novas parcerias, e certamente um período de ajuste que afetará programas, respostas a emergências e pesquisas colaborativas.
Para além do impacto orçamentário, a decisão tem consequência simbólica. Um país fundador que se afasta de uma organização multilateral envia uma mensagem política forte, que pode estimular outros atores a reavaliar compromissos ou, ao contrário, a reforçar laços para compensar a perda. Especialistas já alertam para desafios em respostas rápidas a surtos, iniciativas de prevenção e campanhas globais de imunização.
O episódio também reabre debates internos nos Estados Unidos sobre o papel do governo federal em saúde pública: críticas sobre dependência política, pressões por reformas na governança da OMS e trocas sobre prioridades de financiamento devem preencher as próximas semanas nas arenas diplomática e legislativa.
Como observador sensível às estações do bem‑estar, vejo nesta ruptura uma chamada para cultivar outras raízes — cooperações regionais, redes científicas independentes, financiamentos diversificados. O clima institucional muda, mas o trabalho de proteção da saúde global continua; será uma colheita exigente, que pedirá paciência, criatividade e diálogo renovado.
Nota relacionada: autoridades de saúde dos EUA seguem investigando práticas e políticas domésticas, em meio a debates sobre vacinas, confiança pública e transparência — temas que se entrelaçam com o futuro da governança global da saúde.






















