Por Marco Severini — Em um movimento que redefine momentaneamente o tabuleiro diplomático, a revista Time divulgou estimativas altamente controversas, afirmando que mais de 30 mil pessoas teriam morrido nos dias 8 e 9 de janeiro durante as recentes protestos no Irã. A cifra, segundo a publicação americana, refere-se exclusivamente aos dois dias citados e não inclui mortes posteriores de feridos internados em hospitais militares nem vítimas de áreas sem balanço oficial.
Essa avaliação aparece como um golpe retórico sobre o tabuleiro: é aproximadamente dez vezes superior ao número oficial divulgado por Teerã, que afirma o total de 3.117 óbitos ao longo de todos os dias de agitação, dos quais 2.427 seriam civis e membros das forças de segurança.
O governo iraniano reagiu com veemência. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmail Baghaei, qualificou a estatística de “grande mentira em estilo hitleriano”, sugerindo que a cifra é uma fabricação destinada a justificar intervenções externas e a criar um caso narrativo a favor de um regime-change. Em sua linha argumentativa, Teerã acusa serviços de inteligência estrangeiros de arquitetarem e explorarem o caos.
Nos bastidores dessa disputa informativa surgem depoimentos de ex-agentes: o ex-007 italiano Marco Mancini admitiu publicamente que há indícios de presença de agentes da CIA e do Mossad no território iraniano, citando também supostos operadores da inteligência do Azerbaijão. Em paralelo, vozes como a do ex-colonel americano William Wilkerson acusam infiltrações coordenadas de Mossad, CIA e MI6 nas manifestações, com o objetivo — segundo esses relatos — de alimentar violência sob cobertura e provocar um desfecho político.
Relatos de logística macabra — falta de sacos mortuários, ambulâncias substituídas por caminhões-articulados de 18 rodas — são invocados por fontes que sustentam a versão das dezenas de milhares de mortos. Confrontadas com essas alegações, as autoridades iranianas não apenas rejeitam os números elevados, mas os enquadram como peças de uma campanha de deslegitimação externa.
Como analista que observa a tectônica de poder do Oriente Médio, é necessário ler esse intercâmbio de números e acusações como um duelo de percepções: cada lado coloca uma peça decisiva sobre o tabuleiro, procurando redesenhar a narrativa internacional. A discrepância entre as cifras não é apenas estatística; é um sintoma da batalha pela autoridade narrativa e pela legitimação de ações futuras.
Avaliando friamente, permanecem perguntas cruciais: quais são as metodologias que levaram o Time à marca de 30 mil? Quais as fontes e verificação em terreno controlado por um Estado que acusa intromissão estrangeira? E, inversamente, quais seriam os incentivos para que Teerã subestime consistentemente o balanço humano? A resposta exigirá investigação independente, acesso aos locais e uma sequência de peças de prova que, por ora, continuam fragmentadas.
Este é um episódio que transcende a contagem de vítimas: trata-se de uma jogada estratégica na arena internacional, onde números se transformam em narrativas e narrativas em alicerces para políticas futuras. A estabilidade regional depende, em última análise, da clareza e da credibilidade das informações que orientam decisões de poder.






















