Giorgia Meloni reagiu com firmeza às declarações do presidente Donald Trump que minimizaram o papel dos aliados da NATO no Afeganistão. Em pronunciamento público, a primeira‑ministra italiana definiu como ‘inaceitáveis’ afirmações que colocam em dúvida o contributo dos Estados membros e lembrou o custo humano e político da missão internacional.
O episódio reacende uma tensão diplomática entre parceiros tradicionais: Trump, em comentário reproduzido pela imprensa internacional após sua passagem por Davos e entrevista à Fox News, declarou que os Estados Unidos ‘nunca precisaram’ dos aliados no Afeganistão, que ‘não pediram nada’ e que tropas aliadas teriam atuado ‘um pouco distantes das linhas de frente’. A fala veio acompanhada de menosprezo explícito sobre a dimensão do esforço coletivo após os ataques de 11 de setembro de 2001.
Meloni — que, poucos dias antes, havia declarado apoio público ao tycoon e inclusive manifestado desejo de vê‑lo reconhecido com um prêmio de paz — fez questão de separar laços de afinidade política de respeito institucional. ‘Não são aceitáveis afirmações que minimizam o contributo dos países da NATO no Afeganistão, especialmente quando proferidas por uma nação aliada’, afirmou a premiê, sublinhando que a amizade Itália‑EUA se baseia na confiança mútua e no reconhecimento dos sacrifícios.
Na fala de Meloni emergiu também a lembrança dos números que marcam a participação italiana: 53 soldados italianos mortos e mais de 700 feridos ao longo das operações de combate, segurança e treinamento das forças afegãs. Estes dados foram usados como prova concreta de que a narrativa de ‘dispensabilidade’ não se coaduna com a realidade dos alicerces da cooperação transatlântica.
Reações internacionais já haviam chegado: no Reino Unido, o primeiro‑ministro Keir Starmer chamou as palavras de Trump de ‘ofensivas e francamente assustadoras’, enquanto o príncipe Harry pediu ‘respeito’ às forças que serviram. Também Alemanha e Dinamarca registraram desconforto diplomático com as declarações.
O ministro da Defesa, Guido Crosetto, anunciou em entrevista ao TgLa7 a intenção de enviar uma manifestação formal — prevista para o dia seguinte — ao secretário de Defesa dos EUA e ao secretário‑geral da NATO, pedindo esclarecimentos e o restabelecimento de um diálogo fundado no reconhecimento mútuo das responsabilidades. A iniciativa busca transformar o atrito verbal em uma oportunidade para reforçar a arquitetura do vínculo transatlântico.
Enquanto isso, em Roma, analistas ressaltam que declarações desse porte têm impacto direto sobre a ‘construção de direitos’ e a segurança coletiva: quando uma palavra de liderança minimiza o sacrifício coletivo, erosiona‑se a confiança que sustenta as alianças. A premiê Meloni, com tom firme e pragmático, posicionou‑se como ponte entre a diplomacia e a opinião pública italiana, cobrando que a amizade com os EUA seja cultivada com reciprocidade e respeito, elementos essenciais para garantir a solidez da Aliança Atlântica.
Em linhas práticas, o episódio deverá implicar gestos formais de resposta e um pedido de diálogo institucional entre Roma e Washington. Para os cidadãos, imigrantes e familiares de militares, a posição italiana pretende assegurar que o peso da história e das perdas seja reconhecido, e que derrubar barreiras burocráticas e retóricas seja parte de uma reconstrução séria da confiança mútua.
Como correspondente atento à intersecção entre decisões de Roma e vida real das pessoas, acompanho os desdobramentos desta tensão diplomática: se a arquitetura da aliança for uma construção, cada palavra é um tijolo — e algumas falas recentes exigem reparos urgentes.






















