MARCO SEVERINI — Espresso Italia
Em um episódio que revela a tensão e os limites da atuação policial em solo norte-americano, dois enviados da Rai, Laura Cappon e Daniele Babbo, foram alvo de ameaças por agentes do ICE (polícia federal de imigração) enquanto documentavam os protestos em Minneapolis. O fato ocorreu no quadro da cobertura sobre a comoção provocada pela morte do enfermeiro ítalo-americano Alex Pretti, cuja morte elevou a temperatura política e social na metrópole.
No vídeo divulgado pela própria equipe da emissora, vê-se o carro em que estavam os jornalistas sendo cercado por duas viaturas do ICE, uma à frente e outra atrás, criando o que a condutora descreve como uma situação de aprisionamento: “Ci hanno intrappolato“. A partir do veículo da frente, um agente ordena que o vidro seja abaixado; ao recusar a solicitação, a motorista repete que não estavam fazendo nada de ilegal e que eram de imprensa italiana — “Italian press“.
O tom da abordagem se torna explícito quando, no registro audiovisual, um agente afirma: “Spaccheremo il finestrino e vi trascineremo fuori dall’auto” — uma ameaça direta que, para além do impacto emotivo, impõe questões sobre a liberdade de imprensa e os protocolos de ação das forças federais em zonas de conflito urbano.
Depois da exibição do vídeo no programa In Mezz’ora, a repercussão política italiana foi imediata. Sandro Ruotolo, responsável pela Informazione nella segreteria nazionale del PD ed eurodeputato, classificou as ações como “um fato gravíssimo” e uma “intimidação direta, violenta e inaceitável” contra jornalistas que apenas realizavam seu trabalho. Peppe Provenzano, responsável por assuntos exteriores, pediu solidariedade e instou o governo a uma protesto formal, descrevendo o incidente como ação de uma “polizia politica” que não pode ser tolerada.
Angelo Bonelli, co-portavoce de Europa Verde, usou termos mais duros ao falar de um “salto di qualità inquietante” e alertou para uma deriva autoritária alimentada pela atual administração, interpretando episódios como esse como sinais de uma "frattura da guerra civile strisciante". Do outro lado do espectro político, Deborah Bergamini, deputada e vice-secretária de Forza Italia, expressou solidariedade aos enviados da Rai e ressaltou que a liberdade de informação é um valor universal e inviolável.
Como analista com formação em relações internacionais, vejo este incidente como um movimento no tabuleiro que expõe fragilidades institucionais e riscos para as liberdades civis quando a segurança interna é priorizada sobre garantias democráticas. A imagem de duas viaturas bloqueando um veículo de imprensa desenha, em termos cartográficos, uma zona de contenção onde a liberdade de movimento e de informação fica comprometida — um sinal que exige resposta diplomática e protocolos claros de proteção a correspondentes estrangeiros.
Ao mesmo tempo, é preciso distinguir entre tensão operacional e intenção política direta; o desafio do Estado de direito é justamente manter essas fronteiras — os alicerces da diplomacia pública — intactos, evitando que a tectônica de poder gere rupturas permanentes nas relações bilaterais. O governo italiano, se agir, terá de fazê-lo com precisão de xadrez: um protesto formal e bem articulado, apoiado em provas factuais e canais institucionais, fará muito mais por preservar prerrogativas nacionais e profissionais do que reações inflamadas.
Enquanto isso, permanece o fato objetivo: dois jornalistas italianos foram intimidados enquanto cobriam uma crise local. Esse episódio pede não apenas solidariedade, mas medidas concretas de proteção e clarificação de regras de engajamento para agências federais em solo estrangeiro, para que a liberdade de imprensa não se torne peça descartável na geografia instável da política interna americana.






















