Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha sutis alinhamentos no grande tabuleiro da história, a missão arqueológica conjunta egípcio-chinesa anunciou, no último sábado, a descoberta de um lago sacro dentro do recinto do Templo de Montu, em Luxor, no complexo de Karnak. Trata-se de uma achado descrito pelos especialistas como raro e fruto de oito anos de escavações sistemáticas e pesquisas científicas de campo.
O lago recém-identificado ocupa uma área de mais de 50 metros quadrados e localiza-se a oeste do Templo de Maat, deusa que personifica harmonia, justiça e verdade. A estrutura é um reservatório artificial em pedra, excepcionalmente bem conservado, e surpreende por não constar em nenhum dos arquivos arqueológicos históricos conhecidos.
Segundo Jia Xiaobing, responsável chinês pelo projeto, a posição do novo tanque cria uma configuração arquitetônica inédita: juntamente com o lago já conhecido no recinto de Montu, as duas vasche formam um alinhamento praticamente perfeito no eixo norte-sul. “Esta descoberta preenche uma lacuna fundamental na egiptologia”, explicou Jia: “é o único lago sacro identificado por meio de escavações científicas modernas nesta área específica”.
Na lógica ritual do Antigo Egito, os lagos sagrados não eram meras reservas de água, mas instrumentos centrais da segurança e da ordem cerimonial. Eram de uso exclusivo dos sacerdotes para abluições rituais, claramente separados das fontes destinadas ao uso doméstico.
Além da estrutura hidráulica, os trabalhos de escavação revelaram um conjunto significativo de achados: dezenas de mandíbulas de boi — possivelmente restos de sacrifícios rituais — e blocos de pedra reutilizados datáveis ao Período Tardio (747–332 a.C.). Nas proximidades da capela osiriana foram identificadas três novas capelas dedicadas a Osíris, acompanhadas por dezenas de estatuetas da divindade e fragmentos associados à figura da Adoratriz Divina de Amon, cargo sacerdotal de enorme peso político e religioso, muitas vezes ocupado por mulheres da linhagem real.
Os novos dados permitirão reconstruir com maior precisão a história da cidade sob o domínio das dinastias XXV e XXVI. O projeto, iniciado oficialmente em 2018, é fruto da cooperação entre o Instituto de Arqueologia da Academia Chinesa de Ciências Sociais e o Ministério do Turismo e das Antiguidades do Egito. Até o momento, a missão já explorou cerca de 2.300 metros quadrados dos 106.000 que compõem a área do Templo de Montu.
Mohamed Abdel-Badie, chefe do setor de antiguidades egípcias, salientou o valor simbólico da operação: “A cooperação arqueológica entre China e Egito é um diálogo entre duas das civilizações mais antigas do planeta. Este resultado não pertence apenas aos nossos dois países, é um presente ao conhecimento da história mundial”.
Do meu ponto de vista, como analista que observa a tectônica de poder cultural e científica, esta descoberta é um movimento decisivo no tabuleiro da memória coletiva: revela não só camadas materiais, mas também as linhas invisíveis de continuidade e competição civilizacional. Enquanto mapas e alicerces arquitetônicos emergem do barro, ganha-se também uma nova peça para compreender como centros de poder religioso e político em Tebas foram desenhados, reposicionados e legitimados ao longo dos séculos.






















