Por Marco Severini, Espresso Italia — Em declarações que delineiam a atual conjuntura diplomática como uma sequência de movimentos lentos e calculados, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que não há no momento uma chamada prevista entre o presidente Vladimir Putin e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, embora os canais de contato existentes permitam a organização de um contacto de alto nível de forma quase imediata, se necessário. A ênfase está na prontidão técnica, mas não na iniciativa política.
O Kremlin avaliou de forma cautelosamente positiva o início dos contactos trilaterais entre Rússia, Ucrânia e Estados Unidos, realizados em Abu Dhabi, qualificando-os como construtivos, mas advertindo que a eficácia desses primeiros encontros será limitada e que ainda há um vasto trabalho por fazer. Peskov destacou que seria um erro esperar resultados imediatos, lembrando que a agenda inclui questões territoriais complexas e de difícil solução.
No terreno diplomático europeu, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky renovou em Vilnius um apelo aos seus homólogos da Polônia e da Lituânia por um reforço da defesa aérea, após uma onda de ataques russos que deixou centenas de milhares de habitantes de Kiev sem eletricidade e aquecimento em plena estação fria. Após o encontro com o presidente polaco Karol Nawrocki e o presidente lituano Gitanas Nausėda, Zelensky sublinhou a gravidade da campanha de bombardeios e a necessidade urgente de mísseis para os sistemas antiaéreos.
Segundo o próprio Zelensky, somente na semana em apreço foram lançados mais de 1.700 drones de ataque, mais de 1.380 bombas guiadas e 69 mísseis de vários tipos. Estes números reforçam a narrativa ucraniana de que o problema central no momento é a defesa do espaço aéreo e a proteção das infraestruturas críticas e civis.
Em termos de processo político, Peskov recordou que a fórmula para a resolução das questões territoriais teria sido elaborada durante a cimeira russo-americana do Alasca, a 15 de agosto, e que essa base deve ser aplicada nas negociações em curso. Aquele comentário sublinha a intenção de Moscou de preservar referências já negociadas como alicerces para avanços futuros, mesmo que esses alicerces sejam, por ora, frágeis.
Fontes citadas pelo New York Times indicam que, nas conversações de Abu Dhabi, Washington e Kiev chegaram a avaliar a possibilidade de recolocar tropas de países neutros em determinadas partes da República Popular de Donetsk. A sugestão, se comprovada, revela uma tentativa de desenhar soluções de segurança intercaladas que reduzam o contato direto entre os combatentes, uma espécie de tabuleiro redesenhado através de forças de estabilidade externas.
Por fim, cabe notar a declaração de Zelensky sobre a prontidão da Ucrânia para buscar a adesão à União Europeia até 2027, um objetivo que traduz tanto uma ambição política quanto uma estratégia de ancoragem no eixo ocidental. Em termos estratégicos, tratam-se de movimentos paralelos: enquanto se busca consolidar ganhos de segurança imediatos no terreno, busca-se também um realinhamento institucional de longo prazo.
Analiticamente, a situação configura uma tectônica de poder em que cada gesto diplomático e militar é um movimento no tabuleiro. Os próximos passos exigirão paciência, coordenação transatlântica e disposição para compromissos difíceis. A estabilidade futura dependerá de negociações meticulosas que apliquem fórmulas previamente discutidas, da sustentação do apoio ocidental à defesa ucraniana e da capacidade de transformar contactos iniciais em processos duráveis. Em linguagem de diplomacia clássica, a abertura de canais é necessária, mas não suficiente; o trabalho concreto e detalhado ainda está por vir.






















