Por Marco Severini — Em entrevista ao jornal Kommersant, o vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, Dmitry Medvedev, avaliou que os sinais positivos vindos dos Estados Unidos para retomar o diálogo sobre estabilidade estratégica são “claramente insuficientes” e que, paralelamente, multiplicam-se ações que deterioram o ambiente negociador.
Entre as iniciativas apontadas por Medvedev, destacou-se o projeto norte-americano de defesa antimíssil denominado Golden Dome, que classificou como “extremamente provocatório”. Para o ex-presidente e atual líder de pensamento estratégico do Kremlin, a conjunção entre o desenvolvimento deste sistema e a retórica sobre a eventual retomada de testes nucleares por Washington cria uma camada adicional de complexidade que tende a endurecer posições e a reduzir o espaço para acordos.
Na análise de Medvedev, esses movimentos não são meramente técnicos: imprimem-se como peças num tabuleiro de xadrez geopolítico, onde cada avanço tecnológico e cada declaração pública redesenham fronteiras invisíveis de confiança entre as potências. A construção de um sistema antimíssil continental, ainda que apresentado sob a rubrica de defesa, altera balanços estratégicos e corrói os alicerces da diplomacia de controle armamentista.
O entrevistado também sublinhou a ausência de uma resposta satisfatória de Washington à proposta russa relativa ao período subsequente à expiração do tratado New START, que rege limitações às armas estratégicas e cujo vencimento está marcado para 5 de fevereiro. Em matéria anterior, o presidente Vladimir Putin anunciou que Moscou estaria disposta a manter por um ano as restrições do tratado, desde que os Estados Unidos aceitassem a mesma extensão. Fontes da imprensa indicaram que o presidente Donald Trump teria qualificado a proposta como “uma boa ideia”; porém, segundo a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Maria Zakharova, em 22 de janeiro a Rússia ainda não havia recebido uma resposta oficial e substancial pelos canais bilaterais.
Do ponto de vista estratégico, a proposta russa de extensão temporária representa uma solução de continuidade — um movimento de arquitetura diplomática destinado a evitar um vácuo de regulação que poderia acelerar uma corrida de modernização e teste de capacidades. A falta de reciprocidade efetiva, no entanto, transforma esta oferta numa vantagem tática limitada, a menos que se converta em compromisso institucional por ambos os lados.
Em suma, o diagnóstico de Medvedev descreve uma etapa na qual pequenos deslocamentos técnicos e discursivos — como o projeto Golden Dome e as falas sobre testes nucleares — interagem para criar uma tectônica de poder mais volátil. Para quem observa o tabuleiro global com olhos de longo prazo, trata-se de um momento em que são necessários sinais claros de desescalada e garantias institucionais para prevenir um redesenho perigoso dos equilíbrios estratégicos.
Como analista, mantenho que a recuperação da estabilidade exige não só declarações retóricas, mas arquitetura de confiança: acordos provisórios, verificação mútua e canais bilaterais robustos. Sem esses elementos, qualquer proposta de extensão do New START corre o risco de permanecer no limbo da diplomacia.






















