Ouro rompeu uma barreira que, há um ano, parecia distante: a casa dos US$5.000 por onça. Na sessão de hoje o metal avançou cerca de +2%, acumulando +18% desde o início do ano e impressionantes +84% em 12 meses. Esse rali é a expressão direta dos riscos geopolíticos que redirecionam investidores — inclusive bancos centrais — para o ativo-refúgio.
Em paralelo, a prata seguiu dinâmica análoga, impulsionada tanto pela busca por proteção como pela forte demanda industrial. A cotação alcançou US$108 por onça, com alta diária de +5% e uma valorização de cerca de +254% no último ano.
O movimento dos metais preciosos também reflete a calibragem de juros nos Estados Unidos: a queda nos rendimentos reais torna títulos do Tesouro relativamente menos atraentes, abrindo espaço para a aceleração dos preços do ouro. É como um ajuste fino no motor da economia, onde pequenas alterações na taxa de retorno provocam mudanças significativas no fluxo de capital.
A semana promete ser intensa para mercados: na quarta-feira à noite a Fed deve anunciar sua decisão sobre os juros, com expectativa generalizada de manutenção das taxas. Porém, os olhos do mercado estarão em Jerome Powell, cujos comentários serão examinados após a investigação do Departamento de Justiça — investigação que o próprio Powell classificou como um ataque à independência da autoridade monetária.
Além disso, investidores monitoram os balanços de gigantes de tecnologia que podem recalibrar sentimento de risco: Microsoft, Meta, Tesla e Apple apresentam resultados nos próximos dias.
No front europeu, as bolsas iniciaram a sessão com pouca volatilidade. Milão tenta recuperar-se da perda de -2,11% registrada na semana passada — queda que virou o resultado do ano para negativo — e abriu hoje em leve alta de +0,10%. Londres avançou +0,25%, Frankfurt ficou praticamente estável com +0,10% e Paris recuou -0,15%.
Em contraste, a Ásia viveu uma noite de tensão: o índice de Tóquio sofreu queda acentuada. O cenário combinou alta dos rendimentos dos títulos japoneses e valorização do iene, pressionando operadores que financiam investimentos no exterior via empréstimos em ienes — o conhecido carry trade. Se esse mecanismo for parcialmente desfeito, o efeito dominó pode trazer repercussões sérias para mercados globais, dada a dimensão e alavancagem do fluxo.
Do ponto de vista de estratégia, a subida do ouro e da prata funciona como um diagnóstico de aversão ao risco e uma reavaliação das apostas em renda fixa. Em termos práticos, gestores e family offices devem avaliar a exposição cambial e de taxa em suas carteiras: a combinação entre freios fiscais e incertezas geopolíticas exige ajustes de posicionamento, tal como uma recalibragem fina num sistema de alta performance.
Como observadora dos movimentos macro e de mercado, vejo este momento como uma prova de stress que revela fragilidades e oportunidades: os metais preciosos aceleram, as bolsas europeias navegam com motores em marcha lenta, e a volatilidade asiática lembra que o design das posições internacionais deve prever a possibilidade de reversão abrupta do carry trade.






















