Na esteira das conversações trilaterais Rússia-Ucrânia-EUA em Abu Dhabi, que não alcançaram um acordo sobre uma trégua energética, a cidade russa de Belgorod foi alvo de um ataque atribuído às forças ucranianas contra uma usina termelétrica. Mídia e agências locais definem o episódio como o ataque “mais massivo” à cidade desde o início do conflito.
Com base em fotos e vídeos compartilhados por residentes, a agência independente Astra registrou ao menos 50 explosões, acompanhadas de cortes de energia e água em diversos distritos. O governador regional, Vyacheslav Gladkov, relatou danos a instalações energéticas e afirmou que, durante o bombardeio, “24 munições foram lançadas contra Belgorod”. Segundo ele, nove veículos e equipamentos das usinas sofreram avarias, e equipes do Ministério de Emergências debelaram um incêndio em dependências de uma propriedade privada.
As autoridades russas atribuíram o impacto aos lançamentos do sistema de foguetes de alta mobilidade HIMARS, de fabricação estadunidense. Em paralelo, foi noticiado que um drone das Forças Armadas ucranianas explodiu nos arredores de Krasnaya Yaruga, também na região de Belgorod, ferindo três pessoas, entre elas uma criança.
O ministério da Defesa russo informou ter abatido, nas últimas 24 horas, 31 projéteis de sistemas HIMARS e 68 drones de asa fixa ucranianos. A operação ucraniana ocorre enquanto o país ainda convive com interrupções de serviços elétricos e de aquecimento provocadas por ataques russos às redes de energia nos dias 9, 20 e 24 de janeiro.
Em Kiev, as autoridades apontaram que mais de 1.670 edifícios permanecem sem aquecimento e quase 1 milhão de pessoas seguem sem eletricidade após os ataques. Em declarações que cruzam a retórica e a pressão estratégica, o Kremlin chegou a sugerir que os ataques à rede elétrica ucraniana em temperaturas negativas poderiam visar forçar concessões de Kiev nas negociações de paz.
O presidente Zelensky, em mensagem na plataforma X, ressaltou a necessidade urgente de sistemas de defesa aérea e mísseis de interceptação: “Cada ataque massivo por parte da Rússia pode ser devastador. Precisamos desses sistemas todos os dias e continuamos a trabalhar com os Estados Unidos e a Europa para proteger nosso céu”. Segundo o presidente ucraniano, os alvos prioritários russos incluem o setor energético, infraestrutura crítica e prédios residenciais. Só nesta semana, as forças russas teriam lançado mais de 1.700 drones de ataque, mais de 1.380 bombas aéreas guiadas e 69 mísseis de diversos tipos.
Do ponto de vista estratégico, este episódio evidencia um movimento decisivo no tabuleiro: enquanto as mesas de negociações falham em formalizar garantias para a continuidade do fornecimento e proteção de infraestruturas críticas, as partes ampliam as ações para impor custos e obter vantagem nas futuras rodadas diplomáticas. A ofensiva sobre instalações energéticas assume caráter de pressão sistêmica — um ataque não apenas aos equipamentos, mas aos alicerces frágeis da estabilidade social e à capacidade do adversário de resistir ao inverno.
Há, portanto, um duplo efeito: no campo tático, demonstração de capacidade de ataque em profundidade; no campo estratégico, um redesenho de fronteiras invisíveis de vulnerabilidade energética. A continuidade dessa dinâmica coloca em xeque tanto a segurança humana imediata quanto a viabilidade de negociações, exigindo respostas calibradas dos aliados de Kiev e um reposicionamento da tectônica de poder regional.






















