Por Marco Severini — O Pentágono tornou pública a nova Estratégia de Defesa Nacional dos Estados Unidos, documento que redesenha prioridades e delineia um retorno explícito ao foco sobre o hemisfério ocidental. Em linguagem técnica e de rota diplomática calculada, o texto reafirma princípios de soberania territorial e anuncia um reposicionamento estratégico que alguns analistas já chamam de transição da antiga Doutrina Monroe para a chamada Doutrina Donroe.
O núcleo da estratégia coloca a defesa do território nacional como objetivo primário, seguido pela deterrência frente à China — entendida como competição de alta intensidade onde a força é apresentada como componente dissuasório —, pela maior partilha de encargos entre aliados e pelo vigoroso reforço da base industrial de defesa. O documento destaca, de forma clara, que o hemisfério ocidental foi considerado em anos recentes relativamente “despriorizado” e deve voltar ao centro das atenções americanas, sem, porém, adotar retórica isolacionista.
No tocante à América Latina, o relatório menciona explicitamente países que passarão a compor o escopo de uma política hemisférica mais ativa — entre eles, Cuba, Panamá, Colômbia, México, e até nações de maior porte como Brasil e Argentina — e aponta Israel como plataforma de projeção no Mediterrâneo e Oriente Médio. Fontes jornalísticas e declarações públicas ligadas a sectores próximos à administração indicaram que dirigentes americanos visualizaram mecanismos variados para garantir influência, numa lista que vai desde acordos comerciais e aquisições até formas mais contundentes de intervenção.
Entre os elementos operacionais destacados pela análise que acompanha o documento estão cinco modalidades de expansão de influência: aquisição econômica, intervenção militar direta, ocupação indireta por atores locais alinhados, coerção econômica e a instalação de governos clientes. Tais categorias foram apresentadas como instrumentos possíveis, não como inevitabilidades; tratam-se, porém, de um catálogo de opções no arsenal de política externa que o Pentágono e setores do Executivo colocam em consideração.
No cenário euro-atlântico, a estratégia adota um tom pragmático. A Rússia é qualificada como uma “ameaça persistente, mas gerenciável” para os membros orientais da NATO. O documento confere aos aliados europeus capacidade suficiente para manter defesas convencionais regionais, ao mesmo tempo que sinaliza que o eixo transatlântico compartilha prioridades com outros teatros estratégicos — sobretudo o Indo-Pacífico.
Da minha perspectiva de análise estratégica, este documento representa um movimento decididamente ambidestro no tabuleiro internacional: por um lado, um reposicionamento defensivo que protege os “alicerces” do espaço doméstico americano; por outro, um redesenho de influências regionais que pretende reconstituir áreas de privilégio histórico. Trata-se de uma operação de cartografia do poder, onde linhas de operação e áreas de interesse são redesenhadas sem a necessidade de confrontos abertos — embora a linguagem e os meios de coerção permaneçam no arsenal.
É relevante notar que, em círculos políticos, algumas passagens do documento foram recebidas como eco de iniciativas recentes da administração política, incluindo declarações públicas sobre operações e prioridades em países como a Venezuela. Com isso, a estratégia não só traça diretrizes militares, mas também prepara o terreno político e diplomático para ações futuras.
A nova Estratégia de Defesa Nacional traduz uma tectônica de poder em movimento: reposicionamento hemisférico, ênfase em dissuasão firme contra a China, reforço industrial e uma leitura europeia que tende à delegação de responsabilidades convencionais. No grande tabuleiro da geopolítica, os movimentos delineados são coordenados para preservar vantagem e minimizar riscos, sustentando um desenho de poder que busca ser simultaneamente assertivo e administrável.
Marco Severini é analista sênior em geopolítica e estratégia internacional para La Via Italia.






















