Por Chiara Lombardi — Em um diálogo que é ao mesmo tempo confessionário e ensaio cultural, Ditonellapiaga volta a desenhar seu lugar no espelho do pop italiano. A cantora romana lança Sì lo so na sexta-feira, 30 de janeiro, um single noturno e pulsante que antecede sua segunda participação no Festival di Sanremo com Che fastidio!. As duas músicas funcionam como dispositivos narrativos: uma liberta as falhas, a outra protesta contra rótulos e expectativas.
No novo single, a artista enumera defeitos — «bugiarda, bastarda, alcolista, educanda, maturanda, egoista» — e transforma essa lista em uma estratégia poética de leveza. A canção é, nas palavras dela, irônica, mas também um gesto de acolhimento das próprias contradições: abraçar os defeitos para se libertar do peso do julgamento. Esse movimento tem a ver com o recalibrar que ela precisou após a experiência intensa de Sanremo 2022.
A passagem pelo festival, conta Ditonellapiaga, foi um ponto de inflexão doloroso. “Passei do zero a cem e me perdi”, diz ela — a exposição súbita criou uma relação ruim com o olhar externo. “A vida de um artista naquela semana não é a vida cotidiana do artista”; é um set cinematográfico onde o roteiro oculto da sociedade projeta expectativa e incompreensão. Ela tentou aplainar arestas para tornar-se mais acessível ao mainstream, procedimento que lhe custou identidade e bem-estar mental.
O nome artístico, nascido de um acaso como nickname no Instagram, tornou-se outro prato de controvérsia. “É objetivamente repulsivo, incômodo, mas um nome a reivindicar”, afirma. Há aqui um jogo semiótico: o nome que deveria afastar permite também constituir um projeto irônico, pungente e sbarazzino — uma assinatura estética que se recusa ao enquadramento simplista.
Sobre Che fastidio!, a faixa de Sanremo, a cantora revela o contexto criativo: após uma crise provocada pelo segundo álbum, sua gravadora colocou uma alternativa frente a ela — mainstream ou cantautorato. Ditonellapiaga respondeu que não seria A nem B, seria C. Dessa recusa veio Che fastidio!, uma canção sobre a sensação de estar fora de lugar, contada através de hábitos cotidianos, hipocrisias sociais e o cansaço performático das relações polidas. O tom é irônico, não condenatório, embebido numa melodia pop-dance eletrônica.
Também surge um comentário sobre genealogias musicais: na Itália, observa ela, é difícil enquadrar cantoras que mesclam literatura de canção com sonoridades contemporâneas; no exterior nomes como Charlie XCX ocupam essa interseção com naturalidade. A observação é um convite a repensar fronteiras estéticas — o roteiro da história musical não precisa erigir clivagens estanques entre piano e sintetizador.
E o encontro com Donatella Rettore? “Uma amiga, mas também uma scheggia impazzita” — definição que é postagem emotiva e biográfica: um espelho que revela afinidades, perigos e impulsos. É nesse contraste — entre afeto e faísca — que Ditonellapiaga modela a ideia de companhia artística.
O novo ciclo sonoro e narrativo de Ditonellapiaga propõe um reframe: admitir fragilidades como ato político e estético, recusar etiquetas prontas e reivindicar um espaço de experimentação. Em tempos de curadoria implacável e de redes que encenam verdades, o gesto dela é simples e contundente: mostrar-se inteira, com defeitos e gosto por sintetizadores, e lembrar que, muitas vezes, o palco é apenas um cenário de transformação.





















