Davos, cenário onde o ecossistema do poder global ensaia seus próximos atos.
Terminou mais uma edição do Fórum Econômico Mundial em Davos, reunindo representantes de cerca de 130 países, CEOs e chefes de Estado chamados a negociar compromissos diante de desafios geo-econômicos cada vez mais complexos: guerras regionais, tensões comerciais e a explosão da dívida pública global. Se o palco estava disposto, o roteiro mostrou fissuras profundas.
O avanço imparável da inteligência artificial, a aceleração tecnológica e o uso indiscriminado da internet reconfiguraram a cena. Ao mesmo tempo, a Europa ainda tropeça no investimento em infraestrutura digital, energia e defesa — os pilares que asseguram autonomia estratégica. A política parece incapaz de domar um processo de mudança contínua que exige novo vocabulário, competências específicas, capital abundante e, sobretudo, regras reescritas para um mundo que já não responde às normas herdadas do século XX.
Uma das vozes mais incisivas foi a de Mark Carney, ex-governador do Banco do Canadá e do Banco da Inglaterra, que desenhou com lucidez o risco central para o Ocidente: a tendência à sottomissione — aqui, entendida como a aceitação passiva das imposições dos mais fortes, mascarada pelo discurso da soberania. Carney pediu uma reação que vá além da retórica: reinvenção institucional e investimento em resiliência.
Ao mesmo tempo, o protagonismo midiático deslocou-se para o presidente norte-americano, que voltou a adotar um tom combativo. Sua agenda — uma mistura de ameaças, propostas de reforma de organismos multilaterais e defesa de um “novo equilíbrio” sustentado pelo poder — acabou eclipsando debates chave como crescimento econômico, migrações e a construção de uma defesa europeia robusta. Em Davos, a tática foi clara: a retórica da força e a instrumentalização de tarifas como mecanismo de pressão reacendem velhas dinâmicas de coerção entre potências.
Não faltaram episódios de teatralidade política: referências a intervenções sobre a Venezuela, comentários sobre a Groenlândia e ataques públicos às instituições multilaterais — inclusive à ONU — que, segundo o discurso crítico, teriam perdido eficácia. É preciso, porém, distinguir espetáculo de realidade: as instituições internacionais continuam sendo, apesar de falhas, componentes centrais do sistema de regras que sustentou progresso e relativa prosperidade nas últimas décadas.
O verdadeiro problema debatido, mas pouco resolvido, em Davos foi esse: como restaurar ou recriar um conjunto de regras que contenham práticas imperialistas de autocracias ascensionais sem sucumbir a um novo ciclo de submissões? A ausência de respostas claras expõe uma fratura entre urgência técnica — investimentos em IA, energia e defesa — e a vontade política de enfrentar mudanças estruturais.
Como observadora cultural, percebo em Davos o espelho do nosso tempo: o Fórum funciona como um laboratório onde se ensaiam narrativas que depois reverberam na sociedade. É o roteiro oculto da época em que vivemos — um cenário de transformação em que o entretenimento do espetáculo político muitas vezes sobrepõe a reflexão estratégica. A pergunta que fica é também moral e histórica: que tipo de futuro queremos escrever quando as regras são contestadas e a força reivindica o papel regulador?
Para o Ocidente, a lição é dupla. Primeiro, investir: em infraestrutura digital, segurança energética e defesa comum. Segundo, reinventar a gramática diplomática e normativa que permita responder a comportamentos coercitivos sem recorrer apenas à retórica ou à escalada militar. Davos mostrou que estamos diante de uma prova difícil — não apenas de sobrevivência econômica, mas de coesão política e civilizacional.
Se o Fórum foi um filme, faltou o desfecho: a plateia saiu em silêncio, esperando o próximo ato. Cabe às lideranças europeias e ocidentais escrever um roteiro que não apenas denuncie a soberania instrumentalizada, mas recomponha instituições e regras capazes de governar o presente e projetar um futuro menos injusto e mais sustentável.






















