Por Marco Severini — Em um movimento que reequilibra o discurso atlântico, a primeira‑ministra italiana Giorgia Meloni respondeu com firmeza às declarações de Donald Trump na Fox News, nas quais o ex‑presidente americano afirmou que os militares aliados da NATO “ficaram nas retaguardas, longe da linha de frente” no Afeganistão. Palavras que, na visão de Roma, exigem um reparo público para preservar os alicerces da cooperação transatlântica.
Depois de reações prontas de Londres, Berlim e Paris, que contestaram o teor das afirmações com matizes diferentes, e de posicionamentos críticos vindos do ministro da Defesa Guido Crosetto — que qualificou as observações como “análises superficiais e erradas” — a reação italiana ganhou tom institucional. A Farnesina e partidos da oposição também pediram reparos, pressionando o governo a se manifestar.
Ao final do dia, Meloni teceu uma resposta diplomática, sóbria e firme. Lembrou que Itália e Estados Unidos partilham uma amizade sólida, fundada em valores comuns e em colaboração histórica, e que essa relação exige, para prosseguir, respeito mútuo. “A amizade necessita de respeito, condição fundamental para continuar a garantir a solidariedade à base da Aliança Atlântica“, afirmou a premiê em nota oficial de Palazzo Chigi.
Meloni reavivou o fio histórico do comprometimento italiano no teatro afegão: cerca de vinte anos de empenho, entre a missão ISAF (2001‑2014) e a Resolute Support (2015‑2021), com um custo humano que não pode ser relativizado — “53 soldados italianos caídos e mais de 700 feridos” em operações de combate, segurança e formação das forças afegãs. Para a chefe do Executivo, tais perdas e sacrifícios não podem ser objeto de minimização por parte de um país aliado.
Meloni lembrou também do contexto que motivou a ação coletiva: os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, ocasião em que a NATO acionou pela primeira e única vez na sua história o Artigo 5, galvanizando um ato de solidariedade extraordinária. “Naquela operação, a Itália respondeu imediatamente, destacando milhares de militares e assumindo a responsabilidade do Regional Command West, uma das áreas mais relevantes da missão internacional”, afirmou.
O tom da declaração italiana é, corretamente, menos de acusação pública e mais de reposicionamento estratégico: corrige o curso no tabuleiro diplomático, reafirmando compromissos e recordando o preço pago pelos aliados. Em termos de Realpolitik, trata‑se de preservar a credibilidade da aliança e de evitar erosões nas relações entre capitais amigas — um movimento decisivo para manter intactos os pilares da solidariedade ocidental.
Ao insistir que “não são aceitáveis afirmações que minimizam o contributo dos Países NATO em Afeganistão, sobretudo se provenientes de uma nação aliada”, Meloni não apenas defende a memória dos que serviram, mas também reforça a necessidade de respeito mútuo como condição de continuidade da cooperação estratégica entre aliados.






















