Por Marco Severini, Espresso Italia — Em um movimento que remete a uma jogada decisiva no tabuleiro diplomático, o gabinete de segurança israelense reuniu-se esta manhã para deliberar sobre o destino do posto fronteiriço de Rafah e os próximos passos relativos à Faixa de Gaza. A convocação ocorre após anúncios — confirmados por fontes palestinas e por um enviado internacional — de que o trânsito no posto poderia ser reaberto em ambas as direções ainda nesta semana.
O encontro sucede uma escalada de críticas internas a Israel pela pressão americana para a reabertura do ponto de passagem entre Gaza e o Egito. Na origem do anúncio estava Ali Shaath, comissário de um comitê técnico palestino recentemente constituído, e a confirmação do enviado norte-americano Nikolay Mladenov. A reabertura de Rafah tornou-se, assim, peça central de uma possível segunda fase do acordo de cessar-fogo promovido pelo governo Trump.
Na véspera, o primeiro‑ministro Netanyahu recebeu em Jerusalém emissários estadunidenses — o enviado do presidente Donald Trump, Steve Witkoff, e Jared Kushner, seu genro e conselheiro para o Oriente Médio. Segundo o gabinete do premiê, a reunião não teve detalhes públicos, mas fontes americanas, sob condição de anonimato, relataram que os enviados trabalharam diretamente com autoridades israelenses em duas frentes: a recuperação dos restos mortais do último refém israelense morto em Gaza, Ran Gvili, e os passos operacionais para a desmilitarização de setores da Faixa de Gaza.
O fator emocional pesa: Tel Aviv demonstrou irritação com a reabertura anunciada de Rafah antes da devolução dos restos de Gvili. Esse impasse tem efeito direto sobre a capacidade de Netanyahu de aceitar, e de sustentar politicamente, a transição para a segunda fase proposta. Em termos de Realpolitik, trata‑se de um dilema clássico — avançar no acordo para estabilizar a região ou postergar medidas para atender imperativos domésticos de legitimidade.
No plano militar e estratégico, a cooperação entre forças permanece visível: o almirante Brad Cooper, comandante do Comando Central dos EUA (CENTCOM), encontrou‑se com o chefe do Estado‑Maior das IDF, Eyal Zamir. A nota oficial israelense descreveu o encontro como “pessoal e longo”, destacando o vínculo entre comandantes e o contínuo fortalecimento da colaboração em defesa entre Washington e Jerusalém — um alicerce que sustenta qualquer desenlace político.
Paralelamente, uma delegação da liderança do Hamas, liderada por Khalil al‑Hayyaha, reuniu‑se em Istambul com o chefe da inteligência turca, Ibrahim Kalın, para debater a fase dois do cessar‑fogo, a gestão da administração em Gaza e a abertura plena de Rafah em ambos os sentidos. A delegação incluiu representantes como Zaher Jabarin, Mahmoud Mardawi, Mousa e outros membros do comitê designado.
O conjunto das movimentações demonstra um redesenho de fronteiras invisíveis: atores regionais e globais manobram para consolidar quadros de segurança e governança que possam substituir, ou ao menos conter, o ciclo de violência. A incógnita permanece sobre o tempo político em que Netanyahu dará o seu consentimento final — uma decisão cuja consequência estratégica definirá, nos próximos meses, a tectônica de poder na região.
Em suma, trata‑se de uma fase tensa da diplomacia, onde o equilíbrio entre pressão externa e constraints internas será determinante. Como em uma partida de xadrez bem estudada, cada movimento daqui para frente terá efeitos encadeados: a reabertura de Rafah é, neste momento, tanto um símbolo quanto um teste prático da viabilidade do acordo mediado pelos Estados Unidos.






















