Por Alessandro Vittorio Romano — O balanço da temporada gripal italiana desenha uma paisagem de outono tardio no corpo coletivo: já são 9,2 milhões de pessoas que passaram pela cama ao longo da onda deste ano, com 720.000 novos casos apenas na terceira semana de 2026. Como em uma colheita que ainda não terminou, as estimativas mais amplas apontam que até maio a influenza poderá atingir até 16 milhões de italianos, dos quais quase 2 milhões seriam crianças de até 14 anos.
Os dados do monitoramento mostram uma ligeira queda no índice médio de incidência, que saiu de 13,3 para 12,7 por mil assistidos entre a segunda e a terceira semana de 2026 — um sinal de que o pico pode ter sido ultrapassado. Ainda assim, a geografia da circulação viral permanece desigual e, por vezes, inquietante: a Campânia registra, pela terceira semana consecutiva, a intensidade mais elevada, com índice de 23,7 — quase o dobro da média nacional. Na Basilicata o índice se mantém na faixa muito alta (21,8) depois do salto da semana anterior; a Puglia entrou também nesse patamar, chegando a 20,9; a Sardenha conserva intensidade alta, em 18,4, enquanto o Abruzzo reduziu levemente os casos, ficando em 17,3 e retornando à faixa de intensidade média. Acima da média nacional figuram ainda a Província Autônoma de Bolzano e a Sicília (13,1).
O virologista Fabrizio Pregliasco adota uma imagem simples e precisa: ‘o pico da gripe foi superado, está confirmado’, mas sublinha que ‘não está absolutamente acabada’. A curva epidêmica, segundo ele, terá uma ‘cauda’ que se prolongará pelo menos até o fim de fevereiro. Esperam-se ainda ‘pelo menos mais 5 milhões’ de contágios que se somariam aos 9,2 milhões já registrados pelos médicos sentinela desde o início da vigilância.
Da análise do painel RespiVirNet coordenado pelo ISS (Istituto Superiore di Sanità) surge também um tom cauteloso: a incidência segue em queda e é ‘altamente improvável’ que retorne aos níveis máximos observados em dezembro, quando se chegou a 17,5 casos por mil. Na última semana monitorada (semana 3 de 2026, de 12 a 18 de janeiro), o dado caiu a 12,7 por mil, mas persiste uma incidência ainda muito alta entre as crianças de 0 a 4 anos (33 por mil).
Uma parte significativa das infecções respiratórias agudas — cerca de 30% — foi de verdadeira gripe, aquela que derruba a rotina e pode favorecer complicações como pneumonia requerendo hospitalização. Entre as causas desse cenário está a chamada variante K do vírus A H3N2, descrita como imunoevasiva e apontada pelas análises filogenéticas como responsável por grande parte dos casos.
Viver este inverno epidêmico é, em parte, aprender a escutar a respiração da cidade e o tempo interno do corpo: proteger os mais frágeis, manter a boa etiqueta respiratória e buscar orientação médica quando os sintomas se intensificam. A estação ainda guarda surpresas; a paisagem viral pode parecer acalmada em alguns vales e tempestuosa em outros. Até que a curva recue definitivamente, convivemos com a incerteza — e com a responsabilidade de cuidar uns dos outros.






















