Por Marco Severini, Espresso Italia — Em um movimento que altera de modo perceptível o alinhamento estratégico do Pentágono, a Estratégia de Defesa Nacional 2026 dos Estados Unidos redefine prioridades: a defesa do território nacional e a deterrência contra a China assumem protagonismo, enquanto o apoio militar a aliados na Europa e em outras regiões passa a ser descrito como mais limitado.
O documento oficial do Pentágono estabelece que, “enquanto as forças americanas se concentram na defesa do território nacional e do Indo-Pacífico, nossos aliados e parceiros assumirão a responsabilidade primária por sua própria defesa, com um apoio fundamental, mas mais limitado por parte das forças americanas”. A linguagem é clara: os alicerces da ajuda tradicional estão sendo recalibrados, e espera-se que parceiros assumam encargos mais substanciais.
Redesenho estratégico e tom diplomático
Contrapondo-se à formulação anterior — que qualificava a China como “a mais significativa” das ameaças e a Rússia como uma “séria ameaça” — a nova estratégia adota um tom mais moderado. O texto pede “relações respeitosas” com Pequim e evita menções diretas a Taiwan, enquanto descreve a Rússia como uma ameaça “persistente, mas gerenciável”. Essa mudança não elimina a rivalidade; reordena, porém, o foco e a retórica.
Fronteiras, imigração e temas omitidos
A nova NDS também prioriza medidas para “fechar nossas fronteiras, repelir qualquer forma de invasão e expulsar imigrantes clandestinos”, sinalizando um enfoque doméstico reforçado na segurança fronteiriça. Notavelmente, o documento omite referências aos riscos climáticos — um tema que a administração anterior havia qualificado como “ameaça emergente”.
América Latina: um retorno ao hemisfério
Assim como a Estratégia de Segurança Nacional da Casa Branca, publicada em dezembro, o Pentágono destaca a América Latina como prioridade. O texto promete restaurar o “predomínio militar americano no hemisfério ocidental”, descrição que opera como um claro eco do que foi apelidado no documento de “Corolário Trump à Doutrina Monroe”. Trata-se de um reposicionamento que visa proteger o acesso a territórios e rotas estratégicas na região.
Repercussões e teatro das alianças
O anúncio coincide com as tensões públicas geradas por declarações do presidente Donald Trump sobre o comportamento de aliados da OTAN no Afeganistão — críticas que provocaram reação do primeiro-ministro britânico Keir Starmer. A Casa Branca respondeu de maneira contida, mas o episódio expõe uma tectônica de poder em deslocamento: aliados são convocados a assumir responsabilidades maiores enquanto os Estados Unidos retrabalham seu papel expedicionário.
Do ponto de vista estratégico, o documento traduz um movimento decisivo no tabuleiro: menos presença extensiva e mais concentração nos pontos nodais de competição — sobretudo o Indo-Pacífico — ao mesmo tempo em que se busca solidificar a retaguarda hemisférica. A aposta é que parceiros e aliados ocupem, com maiores recursos e autonomia, peças que antes eram sustentadas pela engrenagem americana.
Em suma, a Estratégia de Defesa Nacional 2026 materializa um redesenho das prioridades de Washington, com ênfase na proteção territorial, contenção da China e uma esperada, porém ambígua, redistribuição de encargos entre aliados. O próximo capítulo dependerá da capacidade desses parceiros de transformar compromissos retóricos em capacidades palpáveis — e da habilidade americana em gerir, com equilíbrio diplomático e estratégico, os novos limites de sua projeção de poder.






















