Por Chiara Lombardi — Em um movimento que revela o roteiro oculto da dor e da memória coletiva, Louis Tomlinson lançou seu novo álbum How Did I Get Here? na sexta-feira, 23 de janeiro. Entre os singles que anteciparam o projeto — “Lemonade”, “Palaces” e o mais recente “Imposter” — há uma faixa que já se destaca como um espelho do nosso tempo: “Dark to Light”.
Essa canção inédita tem sido interpretada como uma dedicatória ao ex-colega e amigo Liam Payne, falecido em outubro de 2024 após uma queda em Buenos Aires. Não é apenas a melodia ou a produção que comovem: é a semiótica do verso, a forma como as palavras de Louis Tomlinson escavam o que resta depois da perda.
Em “Dark to Light”, Tomlinson canta linhas que soam como confissões e perguntas deixadas ao vento: “C’è qualcosa che posso fare?” e “Potrebbe portarti dall’oscurità alla luce?”. A ressonância dessas frases ganha camada adicional quando lembramos que Liam Payne havia tatuado no peito a expressão “Where dark meets light” em 2023 — uma pista quase cinematográfica, como se a vida tivesse escrito um roteiro trágico e fragmentado.
O texto da música remete a um peso que não se consegue sustentar indefinidamente: “Non posso portare questo peso a lungo. Ma non l’ho ancora superato” — uma frase que traduz em imagem a impossibilidade de reinvenção imediata, sem o processo de luto. “È finita prima che finisca. Nessuna fenice tra le fiamme. Ci sono solo fotografie vuote”, canta Tomlinson, desenhando a cena de um apego que sobrevive em relicários fotográficos.
Como analista cultural, vejo How Did I Get Here? mais do que um álbum: é um reframe da realidade íntima de um artista que aprendeu a transformar memória em som. Louis começou a trabalhar no disco em meio à paisagem rural inglesa e depois se isolou por três semanas em Santa Teresa, na Costa Rica, com seu principal colaborador e co-produtor Nico Rebscher. Esse deslocamento geográfico funciona como metáfora — da quietude campestre ao calor tropical — um cenário de transformação para quem reescreve o próprio peito em canção.
O single “Imposter” já mostrava um Louis vulnerável, falando abertamente da sensação de não pertencer: “Não consigo tirar da cabeça essa sensação de ser um impostor. Não sei mais quem eu sou”. Agora, com “Dark to Light”, o tema se amplifica: a culpa, o desejo de ter feito mais e a tentativa de traduzir o que restou em verso. A canção, portanto, não é apenas uma homenagem — é uma peça de arquivo emocional que questiona como testemunhamos e compartilhamos dor pública.
Para os fãs e para a cena pop, há também um eco histórico: em 2013, a canção “Through the Dark”, escrita por membros do One Direction incluindo Louis, já explorava imagens semelhantes. Aqui tudo se encontra, como num espelho quebrado que reflete anos de laços, estradas percorridas e ausências.
Além da qualidade artística, o álbum dá o pontapé para a turnê How Did I Get Here? World Tour, que chega à Itália em abril de 2026 — um itinerário que reverte o olhar para palcos e plateias, onde a música pode atuar como catalisador de luto coletivo e também de recuperação. Em entrevistas, Tomlinson não esconde a dor pela perda de Liam Payne, e, ao que tudo indica, “Dark to Light” será uma das peças centrais desse processo público de lembrar e elaborar.
Como observadora cultural, eu diria que o que vemos aqui é a música cumprindo sua função mais antiga: ser espelho e curador. Louis transforma tristeza em narrativa, convidando o público a entrar no seu processo de cura — um convite que é, sobretudo, humano e necessário.
















