Por Alessandro Vittorio Romano — Há uma promessa que chega como uma brisa suave sobre um campo agitado: pesquisas coordenadas pela professora Wanda Lattanzi apontam para uma estratégia capaz de silenciar o gene defectivo por trás de formas graves de craniossinostose — sem recorrer, ao menos em princípio, à lâmina do bisturi.
O método combina um silenziador genético (o pequeno RNA interferente, siRNA) com nanopartículas que o transportam localmente dentro de um gel injetável, fabricado por impressão 3D. Publicados nas revistas Molecular Therapy Nucleic Acids e Regenerative Biomaterials, os estudos do grupo da Seção de Biologia cellulare e applicata da Università Cattolica, campus de Roma, em colaboração com a Unidade de Neurocirurgia infantil do Fondazione Policlinico Universitario Agostino Gemelli IRCCS, desenham um caminho terapêutico menos invasivo para corrija malformações craniofaciais que hoje exigem múltiplas intervenções cirúrgicas.
As craniossinostoses são malformações congênitas marcadas pelo encerramento prematuro das suturas cranianas — as linhas elásticas que permitem ao crânio acomodar o cérebro em crescimento. Nas formas mais severas, como a síndrome de Crouzon, que ocorre em cerca de 16,5 casos por milhão de nascidos vivos, as deformidades do crânio e do rosto comprometem visão, audição e respiração, podendo evoluir para desfechos graves se não forem tratadas cedo.
Na raiz dessas formas está, frequentemente, uma mutação no gene do receptor do fator de crescimento dos fibroblastos 2, o FGFR2. As mutações patológicas aceleram a ossificação das suturas e esgotam rapidamente as células-tronco ósseas que regulam a integração e o crescimento dos tecidos. Taciturnas muitas vezes, essas alterações surgem de novo, sem histórico familiar, o que torna o diagnóstico pré-natal pouco factível; a detecção costuma ocorrer ao nascimento por exame clínico, imagens e testes genéticos.
Hoje, o tratamento padrão envolve intervenções cirúrgicas múltiplas que se iniciam nos primeiros meses de vida, como a expansão neurocirúrgica para descomprimir o crânio e reduzir a pressão intracraniana. É um ciclo pesado, para as famílias e para o corpo em crescimento — um inverno longo que se repete até a infância.
O que propõem Lattanzi e colegas é cultivar um outro tempo: usar um siRNA que silencie localmente o gene alterado, entregando-o por meio de nanopartículas incorporadas num gel injetável produzido com técnicas de impressão 3D. A ideia é oferecer ao tecido craniano uma espécie de leito regenerativo, onde as células encontram condições para desacelerar a ossificação patológica e preservar as reservas de células-tronco do osso.
Os achados são promissores e se inserem num quadro de pesquisa que vem explorando os mecanismos genéticos e o papel das células-tronco ósseas como alvos terapêuticos. A equipe, liderada por Lattanzi e vinculada à direção da professora Ornella Parolini, combina biologia celular, engenharia de materiais e genética para desenhar alternativas que possam, no futuro, reduzir a necessidade de múltiplas cirurgias invasivas.
Importante: trata-se de um avanço em pesquisa, com publicações científicas que abrem caminho para testes posteriores. Ainda são necessárias etapas de desenvolvimento e segurança antes de falar em aplicação clínica ampla. Mas, como quem observa a paisagem antes do plantio, vejo nesse trabalho o esboço de uma nova colheita — menos traumática e mais alinhada ao ritmo natural do corpo.
Se a promessa se confirmar, poderemos assistir a uma transformação na forma como cuidamos das craniossinostoses: do bisturi para o biomaterial, da emergência para a restauração guiada, do corte para a sutura restauradora.
Fonte: estudos publicados em Molecular Therapy Nucleic Acids e Regenerative Biomaterials; pesquisa coordenada pela professora Wanda Lattanzi na Università Cattolica e no Fondazione Policlinico Universitario Agostino Gemelli IRCCS.















