Sou Alessandro Vittorio Romano e, como quem percorre uma paisagem italiana observando as estações, vejo na pesquisa científica mais do que números: vejo caminhos que podem mudar a respiração interior de quem vive com dor e incerteza. A esclerose múltipla atinge cerca de 144 mil pessoas na Itália, segundo a AISM, e, graças ao avanço das terapias e das neurociências, hoje contamos com mais de 20 medicamentos aprovados. Isso fez com que a expectativa de vida das pessoas afetadas se aproximasse muito da população geral. Ainda assim, as formas progressivas permanecem como um inverno difícil de atravessar — precisam de soluções mais precisas.
Sabemos que a esclerose múltipla nasce de uma resposta anômala do sistema imunológico que, em vez de proteger, ataca componentes do sistema nervoso, gerando uma neuroinflamação. As terapias atuais focam em modular ou suprimir essa resposta para conter os sintomas e os danos a longo prazo. Mas essa estratégia é como poda excessiva: reduz a capacidade do corpo de se defender contra invasores externos e contra outras ameaças que o sistema imunológico normalmente enfrentaria.
É nesse terreno que nasce uma aposta mais sutil e promissora. A Fondazione Santa Lucia IRCCS, em Roma, com o suporte da AISM e da FISM, explora agora os mecanismos anti-inflamatórios naturais do sistema imunológico para desenvolver uma nova classe de drogas que os fortaleçam — sem comprometer a defesa global do organismo. A equipe do Laboratório de Neuroimunologia Molecular, liderada pela doutora Elisabetta Volpe, investigou o papel da interleucina 9 (IL-9) na modulação da ativação inflamatória no sistema nervoso central.
O foco recaiu sobre os astrócitos, aquelas células em forma de estrela que dão suporte e estrutura ao cérebro. Em condições patológicas, os astrócitos podem tornar-se reativos e contribuir para a neuroinflamação. As interleucinas, proteínas mensageiras do sistema imunológico, têm a capacidade de acender ou apagar respostas imunes. O estudo mostrou que a IL-9 exerce um efeito de redução do estado inflamatório dos astrócitos, sinalizando que o próprio sistema imunológico carrega em si mecanismos de “apagamento” da inflamação.
Nas palavras da doutora Volpe, esses achados demonstram que o sistema imunológico não é unicamente um agente agressor na esclerose múltipla, mas também uma fonte de recursos para desligar a neuroinflamação. Compreender como o cérebro dos pacientes responde a estímulos inflamatórios amplia as opções terapêuticas: aproveitar e modular seletivamente esses caminhos — em especial, reprogramar a reatividade dos astrócitos — é um passo essencial para conceber tratamentos mais direcionados e menos deletérios para a defesa do corpo.
O estudo foi publicado na revista internacional Neurology: Neuroimmunology & Neuroinflammation. Em termos práticos, a pesquisa abre a possibilidade de desenvolver medicamentos que reforcem a interleucina 9 ou vias semelhantes, oferecendo esperança sobretudo às formas progressivas da doença, onde as opções ainda são limitadas.
Como um jardineiro que aprende o ritmo das estações e respeita as raízes, a ciência aqui sugere que, em vez de podar o sistema imunológico, possamos cultivar seus mecanismos de calma — uma colheita de hábitos terapêuticos que protege sem sufocar. Ainda há trabalho pela frente, ensaios clínicos e passos de laboratório, mas é reconfortante ver a paisagem do tratamento desabrochar para além da simples supressão: um despertar mais sensível, enraizado na própria biologia do corpo.






















