Por Marco Severini — O Pentágono divulgou a Estratégia de Defesa Nacional de 2026, um documento de 34 páginas que marca uma guinada clara em relação ao texto de 2022. Nesta nova orientação, a administração de Donald Trump convoca os aliados a assumirem maior responsabilidade pela própria segurança, enquanto reposiciona as prioridades estratégicas dos Estados Unidos, colocando a América Latina em destaque e adotando um tom mais comedido perante a China e a Rússia.
No centro do documento está a premissa de que Washington fornecerá um suporte ‘‘fundamental, porém mais limitado’’ às forças amigas, enquanto concentra recursos na defesa do território nacional e na região do Indo-Pacífico. Em termos práticos, trata-se de um redesenho do compromisso norte-americano no tabuleiro global: menos garantias automáticas, mais exigência de contribuição direta por parte de parceiros europeus e de outras regiões.
O texto afirma que «nos envolveremos de boa-fé com nossos vizinhos, do Canadá aos parceiros da América Central e do Sul, mas nos certificaremos de que respeitem e façam sua parte para defender nossos interesses comuns». E acrescenta que, caso esses parceiros não correspondam, os Estados Unidos estarão prontos «a empreender ações direcionadas e decisivas» para proteger seus interesses. É um convite velado ao reequilíbrio de encargos entre aliados — um movimento de peça no tabuleiro que transfere peso estratégico para as margens do poder americano.
Em contraste com a estratégia de 2022, que colocava a China como o desafio mais significativo e via a Rússia como uma «grave ameaça», o documento atual busca «relações respeitosas» com Pequim, negando intenções de dominação ou de mudança de regime. Notoriamente, a estratégia não menciona Taiwan, omitindo um tema sensível que costuma constar nas avaliações anteriores e que mobiliza compromissos legais e militares dos EUA.
Quanto à Rússia, o tom é de menor alarme: a avaliação a qualifica Moscou como «persistente, mas gerenciável». Trata-se de uma reavaliação da ameaça — não de sua negação — que possivelmente visa reduzir escaladas e concentrar atenção e meios em áreas consideradas mais imediatas ao interesse hemisférico.
Outro ponto de ruptura é a exclusão, nesta versão, das referências ao mudança climática como «ameaça emergente» — elemento presente na estratégia anterior. A remoção indica uma redefinição dos riscos prioritários e um foco renovado em questões tradicionais de soberania e controle de fronteiras: o documento afirma que o Pentágono dará prioridade a «fechar nossas fronteiras, repelir qualquer forma de invasão e expulsar imigrantes clandestinos».
Os efeitos práticos desse reposicionamento são múltiplos. Na Europa, a promessa de apoio «mais limitado» força um recalculo político e militar: os aliados deverão fortalecer capacidades autônomas, reorganizar alianças e reavaliar dependências. Na América Latina, a nova ênfase devolve à região um protagonismo geoestratégico, com consequências para investimentos em cooperação, segurança e influência econômica.
Em termos de geopolítica clássica, a Estratégia de Defesa de 2026 pode ser lida como um movimento decisivo no tabuleiro: reposiciona peças, redefine prioridades e testa a capacidade dos aliados de sustentarem defesas conjuntas sem o preenchimento automático do vácuo norte-americano. Os alicerces da diplomacia estão sendo recalibrados; cabe aos atores regionais escolher se erguem fortalezas comuns ou assentam estruturas isoladas.
Como sempre, a estabilidade resultará de escolhas, investimento e vontade política. Se a tectônica de poder se altera, os estados — velhos e novos parceiros — precisarão adaptar suas estratégias para não serem surpreendidos pelo redesenho de fronteiras invisíveis que se desenha no horizonte estratégico dos Estados Unidos.






















